Antes da queda, um século de negócios e luxo

Veículo: Valor Econômico

Seção: Brasil

Fonte: Heloisa Magalhães

Cidade: Rio de Janeiro

 

A família Guinle é protagonista de uma das mais emblemáticas histórias de perdas nos negócios, depois de décadas de riqueza e opulência.

 
O sonho de Eike Batista, com o "grupo X", não sobreviveu uma década. O de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, teve vida mais longa, mas não passou de três décadas.
 
Os Guinle tiveram por 90 anos a concessão do porto de Santos. Beneficiaram-se do auge da exportação de café. Ganharam muito dinheiro rapidamente e se projetaram internacionalmente. Havia os que frequentavam o "jet set" internacional. Um deles foi o "playboy" Jorginho Guinle. Ele nunca trabalhou. Viveu no luxo e terminou seus dias apoiado por amigos.
 
Desde as primeiras décadas do século passado, os Guinle diversificaram os negócios. Investiram no mercado financeiro, na energia elétrica, na indústria têxtil, em imóveis, em terras, na exploração de petróleo. Criaram o Jockey Clube no Rio, construíram palacetes cercados de parques e o hotel mais famoso do país, o Copacabana Palace.
 
Tudo começou com os sócios Cândido Gaffrée e Eduardo Guinle. Eles vendiam nos tempos do Império o que havia de melhor em tecidos importados no Rio de Janeiro. Agradavam a Corte e a família de dom Pedro II. Dizem historiadores que essa simpatia ajudou muito para que, em 12 de julho de 1888, os sócios vencessem a concorrência pública para construir e explorar, por 39 anos, depois ampliado para 90 anos, o porto de Santos.
 
Foi criada a o Gaffrée, Guinle & Companhia que, mais tarde, transformou-se em Companhia Docas de Santos. O porto foi inaugurado em 1892 e cinco anos depois os resultados eram alentadores. O lucro só crescia, pois Santos era a principal porta de saída das maiores fazendas produtoras de café do país.
 
Cândido Gaffrée morreu em 1919. Como havia perdido a mulher e filho no parto da criança, deixou grande parte de sua fortuna para os sete filhos do sócio, Eduardo Palassin Guinle, que havia falecido anos antes, em 1912. Eduardo, nascido em 1846, era de origem francesa, e sua mulher, Guilhermina (1854-1925), uruguaia.
 
Dos filhos do casal, o mais velho, Eduardo (1878-1941) era engenheiro e pilotou, entre 1909 e 1913, a construção do suntuoso Palácio Laranjeiras. Em 1940, para saldar dívidas, o palácio acabou em mãos do Estado. Foi residência de presidentes. Juscelino Kubitschek morou ali até o Alvorada ficar pronto, em 1958. Em 1960, passou para o governo do Estado da Guanabara e, em 1975, com a fusão, para o do Rio de Janeiro.
 
Outro filho do casal Guinle, Carlos (1883-1969), pai de Jorginho Guinle, criou vários empreendimentos, como a Granja Comary, em Teresópolis que há anos abriga a seleção brasileira de futebol. Carlos e o irmão Arnaldo (1984-1963) também voltaram-se para empreendimentos imobiliários. Já outro irmão, Otávio (1886-1968) foi o idealizador do Copacabana Palace, inaugurado em 1923.
 
Um dos irmãos mais empreendedores era Guilherme (1882-1960). Diversificou os negócios, apostando na exploração do petróleo na Bahia. Ajudou a criar e presidiu a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Foi um dos fundadores do Banco Boavista junto com Lineu de Paula Machado, casado com a irmã, Celina.
 
Dizem historiadores que Lineu trouxe a aristocracia que faltava aos Guinle. Ele era neto do Visconde de Rio Claro. Ele e Celina vieram muitos anos em um palacete em Botafogo que ficou com a família até o fim do século passado. Fechado e por seis anos foi comprado de 11 herdeiros pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) em 2011.
 
Lineu e Celina tiveram três filhos. O mais velho, Candido, foi o último presidente da Companhia Docas de Santos. Junto com os filhos atuou no Boavista, que começou a enfrentar sérias dificuldades na década de 90. Praticamente quebrou. Foi vendido para o Banco Interatlântico, por preço simbólico. Mas continuou enfrentando problemas até ser absorvido, em 2000, pelo Bradesco.
 
Os Guinle Paula Machado buscaram novos caminhos, preparando o grupo para o fim da concessão do porto, em 1980. Investiram no agronegócio e criaram as empresas de computadores Elebra, na época da reserva de mercado para a informática. Não tiveram sucesso e elas foram vendidas em 1994, marcando o fim dos negócios de uma família que chegou a ser a mais ricas do país no início do século XX.