Coleções masculinas do SPFW ficam dentro das expectativas

Veículo: Valor Econômico

Seção: Cultura e Estilo

Fonte: Vanessa Barone

Cidade: São Paulo

 

Entre as questões que permearam a edição de Inverno 2014 da São Paulo Fashion Week (SPFW) estavam discussões sobre a continuidade das semanas de moda e a falta de conexão entre as coleções de passarela e o estilo das ruas. Curiosamente, nenhum desses questionamentos respingou na moda masculina, que desfilou impávida pelas salas do evento, armado no parque Villa-Lobos, em São Paulo.

 
Ainda minoria na SPFW, as coleções para eles se mantiveram dentro das expectativas do que se espera para o guarda-roupa para os homens, com pequenas variações sobre os temas alfaiataria e padronagem. Pelo menos, para o carente consumidor de moda masculina, o formato desfile em passarela ainda tem serventia e funciona como ótima vitrine de ideias.
 
João Pimenta e Alexandre Herchcovitch foram os responsáveis pelos melhores momentos da moda masculina, mesmo arriscando em algumas peças que certamente não vão estar no armário do homem "comum" (não-fashionista). Mas mesmo com experimentações - como blazers superlongos ou malhas de tricô de tramas abertas - eles mostraram coleções que dialogam com o consumidor. Ambos mostraram boas propostas para um inverno com poucas cores e bastante textura nas roupas.
 
Entre as ideias fáceis de vingar está a dos "looks" monocromáticos, que também surgiram nas coleções masculinas da Cavalera e da Ellus. Nessa última, a proposta é vestir-se de jeans dos pés à cabeça, tendência fácil de absorver principalmente pelo público jovem. A marca, forte em jeanswear, também apresentou o jeans com tratamento de alfaiataria, para quem quiser experimentar um costume com aspecto bem mais casual.
 
Ainda no tema da monocromia - e na combinação de peças de tons semelhantes - João Pimenta mostrou belos ternos em cores neutras, como bege e caramelo. O vermelho queimado também foi usado para a construção de um costume ousado, mas elegante.
 
A padronagem quadriculada, uma das apostas da moda masculina da temporada, apareceu na coleção de João Pimenta e Alexandre Herchcovitch. Pimenta desenhou um sobretudo vermelho com estampa xadrez que certamente faria sucesso entre os consumidores europeus - normalmente mais abertos que os brasileiros. E mesmo que não emplaque por aqui, já demonstra a disposição do designer de propor novidades no guarda-roupa.
 
Os padrões xadrez, quadriculado e príncipe de Gales, aliás, foram tema de uma reportagem da seção Estilo do jornal "Financial Times", que detectou o modismo nas coleções de Prada, Ralph Laurent, Brioni, Paul Smith e Canali, entre outras. A Gucci deu o seu recado em prol do xadrez ao vestir o ator Eddie Redmayne ("Os Miseráveis" e "Sete dias com Marilyn") na cerimônia de entrega do prêmio "Homem do ano", da revista "GQ".
 
Os compradores dos grandes magazines internacionais confirmam a aposta nesse estilo, fazendo algumas ressalvas para o melhor uso do xadrez: os tecidos com fundo cinza ou marinho, e que possuem padronagem pequena, são as melhores escolhas para o trabalho. A dica para combinar são as mesmas para as listras: a harmonia entre camisa e costume quadriculados só dá certo se a escala dos padrões for diferente. Quadrados do mesmo tamanho por toda a roupa, portanto, nem pensar.
 
Outra tendência internacional captada por João Pimenta é a volta do colete, para compor o terno masculino. O estilista mostrou que essa esquecida peça de roupa pode voltar ao figurino do homem urbano sem cheiro de naftalina. Os homens de negócios mais elegantes dos grandes centros internacionais já entenderam o recado e perceberam o quão requintado pode ser um terno completo. Pelo que se vê nos blogs internacionais de "streetstyle", a valorização da alfaiataria ensaia, para a próxima temporada, superar a hegemonia do estilo casual.
 
E por falar em moda casual, um acessório bastante identificado com esse universo fez uma bela "rentrée" no desfile de Herchcovitch. Trata-se da pochette, o mais irreverente modelo de bolsa de que se tem notícia. Tachada de brega por muito tempo, a pochette tem tudo a ver com o nômade moderno criado pelo estilista. Sem ranço de cafonice, esse personagem combina muito bem com a bolsinha levada na cintura - que, na verdade, parece um bolso que foi descolado da roupa.
 
Os bolsos, aliás, tiveram destaque na coleção não apenas de Herchcovitch, mas também da Ellus e da Cavalera. Bastante visíveis, eles deixam as roupas com aparência utilitária - caso da jardineira cáqui da Ellus e dos coletes com a frente cruzada de Herchcovitch.
 
Roupas com característica utilitárias de uniformes - como os macacões, por exemplo - costumam surgir de vez em quando na moda masculina. A tendência lembra um fato ocorrido logo após o terremoto no Japão em 2011. Na ocasião, nos dias que sucederam a tragédia, os dirigentes do país surgiram na mídia usando macacões típicos de operários.
 
A jornalista Vanessa Friedman, do "Financial Times", fez uma ótima análise da relação dessa peça de roupa com a necessidade de mostrar que os dirigentes estavam prontos para "pegar no pesado" e reconstruir o país. Se é esse o recado que a moda masculina está querendo passar, só o tempo - e o varejo - dirão.