Voltada para dentro, industrialização não criou eficiência

Veículo: Folha de S.Paulo

Seção: Mercado

Fonte: Ricardo Mioto

Cidade: São Paulo

 

O Brasil fez uma opção clara desde o início da sua industrialização: um modelo voltado para dentro, através da substituição de importações.

 
Países como a Coreia do Sul optaram por fortalecer exportações e entrar de cabeça na competição internacional. Tais escolhas foram determinantes nos rumos dos países.
 
O modelo brasileiro foi adotado por imposição das necessidades nos anos 1930.
 
A crise internacional causada pelo crash da Bolsa de Nova York em 1929 fez as exportações do país --majoritariamente café-- desabarem.
 
Sem divisas para importar --e quase tudo era importado na época--, a solução foi começar a fabricar por aqui.
 
O então presidente Getúlio Vargas comprou o tom nacionalista ("o petróleo é nosso") e se esforçou para que o país tivesse indústria de base. A CSN é de 1941; a Vale, de 1942.
 
Ao longo das décadas seguintes, intelectuais (como os membros da Cepal) e governantes (como JK e os militares) mantiveram o olhar para dentro. O parque industrial dobrou a participação no PIB entre a década de 1950 e a de 1980, ultrapassando 25%.
 
Mas, sem ter de competir com o mundo, as fábricas brasileiras nunca foram produtivas ou inovadoras.
 
E 1984, o Brasil fechou o mercado da informática para empresas nacionais. Como os produtos locais eram ruins, todo o país perdeu competitividade. A abertura só aconteceu com o governo Fernando Collor, no começo dos anos 1990. A medida era uma forma de combater a inflação, o grande fantasma da época.
 
O governo FHC seguiu com a abertura, facilitando a importação e mantendo o real valorizado. Os baratos importados foram fundamentais para o sucesso do Plano Real.
 
Tal abertura, entretanto, escancarou as ineficiências da indústria brasileira. No começo do século 21, aparece a China, ultracompetitiva, ameaçando de morte setores tradicionais do país --roupas, calçados, brinquedos...
 
A participação da indústria no PIB voltou a ser o que era nos anos 1950, mostrando que todo o esforço não foi suficiente para ensinar nossas fábricas a andarem sozinhas.
 
Algo da abertura tem sido revertida nos últimos anos, nos governos do PT.
 
ABRIR OU FECHAR
 
É fato que vários países hoje liberais já adotaram o protecionismo. Antes de defender a abertura de mercados, o Reino Unido, nos séculos 15 e 16, fez tudo para se fechar contra a pujante produção têxtil dos Países Baixos.
 
Depois foi a vez de o Reino Unido ser vítima do protecionismo dos EUA. O norte industrial, vencedor da Guerra de Secessão, não queria competição externa. Os EUA se mantiveram mais ou menos fechados até a Primeira Guerra.
 
Um defensor radical do protecionismo foi Alexander Hamilton, primeiro secretário do Tesouro dos Estados Unidos (1789-1795), hoje na nota de dez dólares.
 
No que se refere aos produtos agrícolas, ainda hoje EUA e Europa impedem a entrada de produtos estrangeiros mais competitivos.
 
O problema do protecionismo é que é difícil acabar com ele. Políticas de proteção à indústria nascente acabam seguindo vivas por décadas.
 
Grupos diretamente interessados tendem a ser muito mais organizados do que a população em geral. Como mostra o caso brasileiro, as barreiras só caem quando são obstáculo à resolução de uma crise (como a inflação) ou quando outro grupo organizado emerge e passa a defender seus próprios interesses.