Bicudo volta a preocupar cotonicultor

Veículo: Valor Econômico

Seção: Agronegócios

Fonte: Fabiana Batista e Lucas Marchesini

Cidade: São Paulo e Brasília

 

No Congresso Brasileiro do Algodão, que começa hoje, em Brasília, pesquisadores devem apresentar levantamento que mostra o retorno de ataques severos de uma das pragas mais nocivas ao algodão: o bicudo. O inseto, que em alguns casos neste ano causou mais estragos do que a própria lagarta helicoverpa, contou com o descuido do produtor, ainda pouco experiente no manejo de pragas em um ambiente mais complexo, com adoção de tecnologias geneticamente modificadas.

A conclusão integra uma das descobertas da Expedição Algodão 2013, projeto que fez um diagnóstico das lavouras da cultura em nove Estados do país na temporada 2012/13, ainda em fase de colheita no caso do algodão.

A suspeita é que a incidência maior do inseto tenha origem em áreas cultivadas ora com soja ora com algodão, ambas usando variedades transgênicas com o mesmo tipo de resistência. O coordenador do estudo, o pesquisador do Instituto Mato-grossense de Algodão (IMA), Jean Belot, menciona como exemplo uma área colhida de variedades de algodão resistentes ao herbicida glifosato e cuja limpeza não foi feita adequadamente antes do cultivo de soja com a mesma resistência.

"O algodão remanescente rebrota no meio da soja e vira foco de proliferação do bicudo. O inseto pode se transportar para áreas próximas de plantio de algodão", exemplifica Belot.

Ele acrescenta que a biotecnologia trouxe simplificação ao produtor, mas para preservar essa vantagem é preciso intensificar o manejo de pragas. "A operação ficou mais complexa e é preciso mão de obra treinada para lidar com essa nova condição", afirma Belot.

Atualmente, estima o pesquisador, aproximadamente 60% da área de algodão do Brasil é cultivada com transgênicos, entre variedades resistentes ao glifosato, ao glufosinato de amônia e ao ataque de insetos (lagartas). "O avanço está vindo muito rápido. Não me surpreenderia se esse percentual saltasse para algo em torno de 70% ou 80% da área já no próximo ciclo", afirma Belot.

A ideia, diz o pesquisador, é a que a expedição, realizada pela Associação dos Produtores de Algodão de Mato Grosso (Ampa) e a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), seja feita anualmente para que seus resultados ajudem a subsidiar os debates técnicos do congresso.

Entre outros assuntos que vão ser tratados no evento, que começa hoje, está a liberação de defensivos agrícolas para o combate à lagarta helicoverpa e a atualização do preço mínimo da pluma, segundo o presidente da Abrapa, Gilson Pinesso. Nos dois casos, ele se queixou da morosidade do governo. "O combate à helicoverpa ainda é um problema aos produtores brasileiros porque a Anvisa não libera o uso de alguns defensivos já utilizados em outros países".

Um paliativo para o problema será a publicação de um decreto que regulamenta casos de emergência vegetal sanitária, que deve ser assinado nesta semana pela ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, segundo expectativa da Abrapa.