Sindicalistas tentam retomar protagonismo

Veículo: Valor Econômico
Seção: Política
 
Por Raphael Di Cunto, Guilherme Serodio, Lucas Marchesini e Sérgio Ruck Bueno | De São Paulo, Rio, Brasília e Porto Alegre
 
As centrais sindicais e movimentos sociais realizam hoje manifestações pelo país para tentar reaver o protagonismo das ruas, após uma série de protestos tomarem o país em junho sem que os sindicatos e movimentos tradicionais, como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), tivessem participação.
 
A possibilidade de greve geral está descartada, mas estão programados atos de várias categorias em pelo menos 50 cidades. O principal alvo serão os transportes. Os trabalhadores pretendem parar rodovias, portos, ônibus e metrô. Também haverá mobilizações de comerciários, metalúrgicos, motoboys, professores, bancários, servidores públicos e empregados da indústria da alimentação, do Poder Judiciário e de TI.
 
Os protestos visam pressionar o governo federal a dar andamento à pauta de reivindicação dos trabalhadores, entregue para a presidente Dilma Rousseff em março e até agora sem resposta. São oito itens: redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais, fim do fator previdenciário e dos leilões de petróleo, reajuste para os aposentados, mais investimentos em saúde, educação e segurança públicas, fim do projeto que regulamenta a terceirização e realização da reforma agrária.
 
Os movimentos sociais e partidos que aderiram aos protestos também inseriram outras pautas, como a reforma política. O PT quer usar o ato para defender o plebiscito proposto pelo governo federal, mas encontra resistência. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), ligada ao partido, é a única a apoiar a ideia. A Força Sindical, que tem flertado com a oposição, diz que puxará o "Fora Dilma" se a legenda insistir. Já a União Geral dos Trabalhadores (UGT), que tem dirigentes filiados a PSD e PPS, terá como slogan o "Se liga Dilma".
 
À frente dos protestos de junho, o Movimento Passe Livre (MPL) divulgou carta ontem em apoio às manifestações organizadas pelos funcionários do metrô - cujo sindicato é ligado ao PSTU e apoiou os protestos contra o aumento da tarifa. O grupo, porém, criticou as centrais por defenderem propostas "genéricas" e pautas diversas "que tendem a ficar diluídas".
 
"Se nossos problemas são concretos, nossas pautas devem ser igualmente concretas", afirmou o movimento, que deverá se dividir entre os protestos na capital e na região metropolitana de São Paulo pela melhora no transporte.
 
A mobilização que deve atingir todo o país é nos portos. As três federações que representam os trabalhadores do setor decretaram greve nos portos públicos e tentam parar ainda os privados. Além da pauta geral, os sindicalistas reclamam da Medida Provisória dos Portos, que já foi sancionada por Dilma há mais de um mês.
 
Na capital paulista, palco principal das manifestações, a concentração será às 12h na avenida Paulista e, depois dos discursos, os manifestantes caminharão até a Praça da República, no centro. Os sindicatos querem parar as principais rodovias de acesso à cidade, como Anchieta, Anhanguera, Bandeirantes, Castelo Branco, Raposo Tavares, Fernão Dias e Dutra. Os funcionários do metrô, que chegaram a anunciar a greve, decidiram ontem aderir ao ato sem parar.
 
A Secretaria de Segurança Pública do Estado disse que as centrais se comprometeram a atuar de forma "pacífica e tranquila" e sem promover "a obstrução absoluta das rodovias". "A PM confia que este acordo será cumprido, mas está pronta para atuar caso não seja", diz nota do governo, sem especificar que medida será tomada.
 
Também haverá paralisação de parte dos ônibus municipais de São Paulo por causa da eleição do sindicato, que ocorre hoje e amanhã. A chapa de oposição, que paralisou ontem o funcionamento de metade dos terminais da cidade e prejudicou cerca de 750 mil pessoas, promete repetir o protesto hoje. O grupo do atual presidente, que tenta a reeleição, é contra. Ontem à noite, o conflito entre as duas chapas se acirrou. Numa briga por causa da verificação das urnas, pelo menos três pessoas foram baleadas na sede do sindicato, no bairro da Liberdade, e duas delas chegaram ao hospital em estado grave. Outras cinco tiveram ferimentos leves, informou o Corpo de Bombeiros ao Valor, no local.
 
Já no Rio de Janeiro, os funcionários dos transportes públicos dizem que vão apoiar os protestos, mas que não farão greve. A concentração dos manifestantes será às 15h na Candelária, no centro da cidade. Os professores da rede pública estadual e municipal, insatisfeitos com veto do governador Sérgio Cabral (PMDB) a projeto que previa melhorias para a categoria, vão engrossar os atos.
 
No Rio Grande do Sul, porém, os sistemas de transporte devem parar. Os trabalhadores das empresas de ônibus de Porto Alegre e região metropolitana prometem interromper os serviços, e o Departamento de Estradas de Rodagem, que fiscaliza as linhas intermunicipais, decidiu suspender a circulação dos veículos até que os bloqueios sejam encerrados.
 
A Trensurb, estatal que opera o metrô de superfície entre a capital e cinco municípios do entorno, fez acordo com os funcionários para funcionar apenas nos horários de pico. Segundo a Federação dos Metalúrgicos da CUT no Estado, muitas indústrias do setor já indicaram que não punirão quem se ausentar por falta de transporte.
 
Além dos rodoviários e metroviários, participarão professores das redes pública e privada, servidores estaduais e municipais, comerciários, metalúrgicos e bancários. O Tribunal de Justiça e o Tribunal Regional Federal da 4ª Região não terão expediente hoje.
 
Porto Alegre já foi palco de protestos ontem à noite, quando manifestantes do Bloco de Luta pelo Transporte Público invadiram a Câmara Municipal e disseram que permanecerão acampados até ter as reivindicações, que vão desde passe livre estudantil até demarcação de terras indígenas, atendidas.
 
Em Belo Horizonte, devem parar trabalhadores da saúde, educação, da companhia de energia elétrica (Cemig) e da companhia de água e saneamento (Copasa). No setor privado, estão previstas paralisações em empresas têxteis, comércio e de autopeças. Também estão marcados atos em Uberlândia, Montes Claros, Ipatinga e Governador Valadares.
 
Em Pernambuco, a Força Sindical vai parar as obras da Refinaria Abreu e Lima e da Petroquímica Suape, ambas da Petrobras. Após a mobilização em Suape, ocorrerá à tarde um ato no centro do Recife com a adesão de enfermeiros, servidores federais, comerciários, profissionais do setor de hotelaria e limpeza, portuários e bancários.
 
Em Brasília, a manifestação começará às 15h em frente ao Museu Nacional, passará na Esplanada dos Ministérios e irá até o Congresso Nacional. Também haverá atos pontuais no Banco Central e no Palácio do Buriti, sede do governo do Distrito Federal. (Colaboraram Cristiane Agostine, de São Paulo, Luciana Bruno e Alessandra Saraiva, do Rio, Marcos de Moura e Souza, de Belo Horizonte, e Murillo Camarotto, do Recife)