Queda da indústria foi forte, ampla e afetou investimento

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil
 
Por Diogo Martins, Juliana Elias e Rodrigo Pedroso | Do Rio e de São Paulo
 
A queda na produção industrial em maio - de 2% sobre abril descontados os efeitos sazonais - divulgada ontem de manhã pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) confirmou um quadro de fraca recuperação da economia em um cenário de inflação ainda elevada. Além de forte, a queda foi generalizada entre os setores em maio e criou dúvidas sobre o ritmo dos investimentos, até então uma das apostas mais firmes da equipe econômica para a recuperação da economia em 2013. A produção de bens de capital recuou 3,5% em maio sobre abril, com ajuste sazonal.
 
A queda de maio foi superior ao recuo de 1,1% esperado, na média, pelos economistas ouvidos pelo Valor Data. Esse resultado, associado às incertezas criadas sobre junho, pelos cenários externo e interno, reforçaram projeções mais fracas para o comportamento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano (ver matéria ao lado).
 
 
Além de ter sido bastante generalizado (20 dos 27 setores produziram menos em maio em relação a abril), o resultado de maio mostra retrações expressivas nos segmentos que refletem a intenção de consumo da população e indicam bens cuja demanda pode ser controlada ou evitada pelas famílias. A produção de móveis recuou 11,4%, a de vestuário caiu 4,9%, a de máquinas para escritório e informática, 9%, e a de calçados, 7,3%, sempre na comparação entre maio e abril, com ajuste sazonal. Para o gerente da coordenação de indústria do IBGE, André Luiz Macedo, a demanda interna vem sendo reduzida pelo endividamento das famílias. "A inadimplência está em um patamar elevado e as famílias estão com um alto grau de comprometimento da renda", disse.
 
No acumulado em 12 meses, a indústria ensaia uma lenta recuperação desde julho do ano passado. Nesses dez meses, ela acumula um crescimento de 2,5%. Mensalmente, contudo, a produção industrial tem oscilado. Ela subiu 2,7% em janeiro, caiu 2,3% em fevereiro, voltou a subir em março (0,8%) e abril (1,9%), e recuou forte em maio, sempre na comparação de um mês com o imediatamente anterior, com ajuste sazonal.
 
Para Julio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica e professor da Unicamp, a volatilidade das notícias sobre a economia está fazendo com que os empresários não apostem em um cenário de médio e longo prazo. "Quando o ambiente da economia e as expectativas não estão muito bem assentadas, qualquer sinal de acúmulo de estoque faz o empresário diminuir a produção", diz Almeida. "Quando o estoque cai, ele acelera a produção novamente. Esse tipo de comportamento também é típico de uma economia com inflação maior e certo grau de incerteza. Estão apostando menos no futuro e reagindo ao presente."
 
Macedo, do IBGE, também avalia que o acúmulo de estoques voltou a prejudicar a produção da indústria em maio. "O estoque pode justificar essa queda mais acentuada no mês. Com recuo das exportações, aumento das importações e a demanda não acompanhando a produção, os estoques sobem. O setor industrial tenta compensar isso segurando seu ritmo", disse.
 
Na avaliação do economista Flávio Combat, da Concórdia Corretora, o dado de maio aponta para um desgaste nas políticas de desonerações de incentivo ao consumo, em especial as isenções de IPI para produtos como automóveis e eletrodomésticos, que vêm sendo reeditadas pelo governo desde a crise de 2009. "Já se sabe que esse tipo de medida tem um impacto decrescente ao longo do tempo. Em um primeiro momento, incorpora uma série de pessoas que ainda não possuem aquele bem, mas depois se esgota", disse Combat.
 
Outro elemento da retração de maio e do resultado fraco do ano está associado à inflação e à exportação, avalia Macedo, do IBGE. "O aumento nos preços de alimentos ajuda a explicar o desempenho da produção do setor, mas não é o único fator. Uma parcela da produção de alimentos é exportada e, com a desaceleração da economia internacional, há menos demanda no exterior por alimentos", avalia.
 
Há quem veja um quadro menos negativo. Para o Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial (Iedi), o recuo de maio foi puxado por ramos que apresentaram altas expressivas em abril e que, portanto, devolveram boa parte daquele desempenho. A tendência, porém, ainda é de crescimento, embora mais modesto.