Exportação à Argentina dá salto, mas cenário preocupa

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil
 
Por Sergio Leo | De Brasília
 
Surpresa no comércio com a Argentina: as exportações brasileiras para o vizinho do Mercosul, que vinham caindo seguidamente, tiveram forte aumento em abril, de 31%. O principal responsável por esse crescimento foi o setor de veículos, incluindo tratores e partes automotivas, cujas vendas aumentaram 49% em comparação com o mesmo mês do ano passado.
 
Houve, por parte dos argentinos, uma diminuição das barreiras informais à importação. Em setores como os de calçados e têxteis, as associações industriais não registram mais queixas de retenção de embarques nas alfândegas, como chegou a ser frequente. Executivos dessas áreas comentam, porém, que a imprevisibilidade da política comercial argentina desestimula os negócios com o país vizinho, onde os importadores ainda estão sujeitos a restrições informais. Há, por exemplo, o esquema "uno por uno", pelo qual importadores argentinos só recebem licença para comprar bens no exterior se comprovarem exportações no mesmo valor.
 
Parte da recuperação das exportações em abril decorre de um ligeiro aumento na demanda de alguns produtos, como calçados, e uma forte procura por automóveis. Alguns especialistas suspeitam que os carros estejam servindo de reserva de valor contra a escalada da inflação. A expectativa de menor necessidade de divisas neste ano também levou a Argentina a afrouxar o controle sobre a entrada de mercadorias. As importações gerais do país cresceram 32%.
 
O país vive uma crise política e enfrenta dificuldades econômicas, com o aumento das pressões inflacionárias e forte avanço nas cotações do dólar no mercado paralelo. Por isso, analistas e empresários brasileiros temem que a crise no país vizinho possa impedir a continuidade dessa recuperação no comércio bilateral.
 
Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, "o cenário não é bom", porque as perspectivas para as exportações da Argentina são de queda, em razão da redução nos preços da soja e do milho. "Como já se fala na necessidade de um superávit de US$ 11 bilhões, a alternativa será reduzir as importações", prevê Castro.