China entra em uma nova era de crescimento econômico menor

Veículo: Valor Econômico

Seção: Internacional

 

Por Jamil Anderlini | Financial Times, de Pequim
 
A China entrou em uma era de crescimento menor e vai precisar se adaptar ao fim de um período de 30 anos marcado por expansão econômica superior a 10% ao ano, segundo alerta da agência oficial de estatísticas divulgado ontem.
 
Ao anunciar que o crescimento econômico se desacelerou para 7,7% no primeiro trimestre, em relação ao mesmo período de 2012, Sheng Laiyun, porta-voz da Agência Nacional de Estatísticas, disse que "após 30 anos de crescimento econômico de alta velocidade, o produto potencial da China caiu".
 
"Durante o período de transformação econômica de outros países, como Alemanha, Japão e Coreia do Sul, suas taxas gerais de crescimento também caíram para patamar mais baixo", acrescentou.
 
 
Um crescimento chinês significativamente menor vai impactar economias por todo o mundo e prejudicar, em particular, exportadores de matérias-primas que se tornaram dependentes da crescente demanda chinesa nos últimos dez anos.
 
"Para exportadores de commodities em lugares como Austrália, América Latina e África, um crescimento bem menor é uma notícia muito ruim", disse Frederic Neumann, um dos chefes de análise econômica da Ásia no HSBC. "Há muita oferta que foi criada com base na ideia de que a China cresceria acima de 9% para sempre".
 
Nas últimas semanas, autoridades chinesas minimizaram a importância do crescimento mais baixo, dizendo que a desaceleração deve-se, em parte, aos esforços para reequilibrar a economia, tirando peso dos investimentos e exportações e aumentando o do consumo doméstico.
 
"Não acho que a China vá poder sustentar uma velocidade de crescimento super-rápida ou ultrarrápida e não é isso que queremos", disse o presidente do país, Xi Jinping, na semana passada. "O modelo de desenvolvimento da China não é sustentável. Logo, para nós, é imperativo acelerar a transformação do modelo de crescimento".
 
Mercados acionários pela Ásia caíram depois da divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) chinês ontem de manhã. O CSI 300 - índice de ações listadas em Xangai e Shenzhen - caiu 1%. Em Hong Kong, o índice Hang Seng China, de empresas na China continental, recuou 2%. Varejistas de artigos de luxo, como as joalherias, estiveram entre as mais afetadas, com os papéis da Chow Tai Fook perdendo 4,3% do valor e os da Luk Fooksinking, 7,3%.
 
Moedas de países com grandes exportações à China também se desvalorizaram. O dólar australiano cedeu 0,6%, enquanto o da Nova Zelândia caiu 1%, em relação à divisa dos EUA. A Nova Zelândia é grande exportadora de produtos agropecuários e florestais para China, como carneiro, laticínios e madeira.
 
O menor potencial de crescimento também forçará empresas com operações na China a reconsiderar seus modelos de negócios, que muitas vezes dependem de altos níveis de endividamento e investimento.
 
A maioria dos analistas previa crescimento em torno de 8% para a segunda maior economia mundial no primeiro trimestre, depois de o desempenho ter se recuperado em comparação a meados de 2012 e mostrado avanço de 7,9% nos últimos três meses do ano.
 
Apesar do aumento no crédito no primeiro trimestre, o crescimento foi limitado por vendas varejistas decepcionantes e um setor industrial mais fraco que o esperado, sinal de que os estímulos monetários não vêm tendo tanto efeito quanto antes.
 
O Banco Mundial, ecoando o alerta vindo de Pequim, previu ontem que o crescimento da China vai se desacelerar para "entre 6% e 7% no fim da década", segundo Bert Hofman, economista-chefe para a Ásia da instituição.
 
Em seu informe semestral regional, o Banco Mundial projeta expansão de 8,3% para a economia da China em 2013, embora a maioria dos analistas considere a previsão muito otimista.
 
Sheng acredita que a China atingirá a meta de crescimento anual de 7,5% traçada neste ano pelo governo. Se crescer até 7,5%, será a menor taxa anual desde 1990, quando Pequim enfrentou sanções, em protesto contra a repressão de manifestantes na Praça da Paz Celestial, em 1989.
 
Pequim mostra tranquilidade quanto ao ritmo de crescimento, já que não houve aumento de desemprego e a inflação está relativamente controlada - foi de 2,4% no primeiro trimestre em comparação ao mesmo período de 2012.
 
Foram criados mais de 3 milhões de novos empregos em áreas urbanas nos três primeiros meses de 2013, de acordo com números do governo. Os "dados de emprego mostram forte contraste com os dos EUA e Europa", segundo Sheng.