Quatro horas, dois pesos

Veículo: Jornal de Santa Catarina
Seção: Economia

Trabalhadores têxteis reivindicam o fim do trabalho aos sábados com redução da carga horária, mas classe empresarial argumenta que medida levará à perda de competitividade

Carga horária e dias de trabalho voltam a ser tema de discussão no setor têxtil em Blumenau. De um lado, trabalhadores defendem a mudança da carga horária de 44 para 40 horas semanais com o sábado livre, sem mudança nos salários, pela qualidade de vida. Do outro, a classe empresarial argumenta que a redução significará aumento de custos.

O assunto é colocado há seis anos no rol de reivindicações dos trabalhadores têxteis de Blumenau. A discussão ganhou corpo diante dos últimos movimentos, com a intervenção do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem de Blumenau, Gaspar e Indaial (Sintrafite). A Cremer reduziu a carga horária para 42,9 horas e diminuiu o número de sábados trabalhados para seis ao ano, em vigor desde segunda-feira. A Cia. Hering passa a ter jornada de 43 horas semanais nas unidades de Blumenau e Indaial para o setor produtivo, com trabalho em sábados alternados a partir de 1º de maio. O terceiro turno passa a ter alternância de domingos.

A presidente do Sintrafite, Vivian Bertoldi, afirma que ano passado a entidade conversou com as maiores empresas, mas as negociações não avançaram. Agora, o sindicato faz trabalhos junto aos operários em cada empresa, por meio de operação tartaruga – reduzindo a produtividade, como ocorreu anteriormente na Cremer e na Cia. Hering – e de assembleias para pressionar a retomada das conversas.

Diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Fiação, Tecelagem e do Vestuário de Blumenau e Região (Sintex) e presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Econômico, Renato Valim explica que o caso da Cremer é diferente das demais, por trabalhar com artigos para saúde. Específica também é a situação da Cia. Hering, segundo o Sintex, que tem focado no varejo.

O fim do trabalho aos sábados para os operários é sinônimo de mais tempo com a família, alívio às mães que dependem da rede municipal de ensino para deixar os filhos e mais tempo de descanso contínuo, argumenta Vivian. Por outro lado, Valim destaca que o sábado e a redução de jornada são assuntos distintos, que não deveriam ser discutidos de forma unificada. Para ele, apesar de as empresas estarem preocupadas com o bem-estar dos trabalhadores, não podem abrir mão da jornada de 44 horas. A redução significaria máquinas paradas, produção menor e mais cara. O que refletiria inevitavelmente no preço do produto, explica Valim, reduzindo a competitividade das empresas instaladas em Blumenau. As consequências seriam o desinteresse da instalação de novas empresas, menos investimentos e a possibilidade de desindustrialização, que afetaria a economia da cidade.

Vivian acredita que todas as empresas consigam, senão reduzir, diluir as quatro horas feitas aos sábados para os dias úteis. Entretanto, Valim explica que, por conta da sobreposição de horários onde há terceiro turno, em certos casos é impossível fazer 44 horas em cinco dias. Porém, algumas empresas que trabalham em dois turnos e têm maior possibilidade de abrir mão dos sábados, especialmente confecções, já praticam este modelo.

A Cremer preferiu não se manifestar sobre a decisão. A Hering informou que a redução da jornada ocorreu após um processo de amadurecimento, que se enquadrou com os objetivos da empresa em relação à competitividade e ao bem-estar dos colaboradores.

daniela.matthes@santa.com.br
DANIELA MATTHES