“A criatividade pode burlar a crise”

Veículo: Jornal de Santa Catarina
Seção: Economia

Entrevista: Celaine Refosco, diretora criativa do Instituto Orbitato

Artista plástica pela Escola de Belas Artes do Paraná, mestre em Educação pela Universidade de La Habana (Cuba), especialista em Design para Habitação pelo CDI (Uruguai/Itália) e diretora de Criação em Moda pela FAAP e MASP/ABIT. Celaine Refosco, diretora criativa do Instituto Orbitato, em Pomerode, tem um currículo amplo quando o assunto é o design têxtil. Já foi convidada a participar da Heimtextil, principal feira têxtil do mundo, que ocorre na Alemanha, e também da Colombiatex, uma das maiores feiras da América Latina. Nesta semana, também estará presente na 3ª Texfair Home, em Blumenau. Com um olhar internacional para feiras têxteis, Celaine explica como o Vale do Itajaí se encaixa neste cenário e qual o rumo que o setor precisa seguir.

Jornal de Santa Catarina - Você já participou de duas grandes feiras mundiais do setor, na Colombia e na Alemanha. Como a Texfair Home está em relação a elas?

Celaine Refosco - A Colombia tem o que aprender com a gente e nós temos o que aprender com a Alemanha. O que temos de interessante para o exterior é a nossa vitalidade. Esse negócio da alegria, da juventude brasileira é apreciado por empresários da Europa. A troca de qualidades é importante, pois temos o que aprender e ensinar. Na Colômbia, por exemplo, a organização não é um ponto forte. Neste quesito, a indústria brasileira e, principalmente, a catarinense é muito organizada. A Texfair tem nome e é conhecida tanto na América Latina como em outros continentes. É preciso aproveitar mais isso. O que temos a nosso favor é que a indústria está por perto, ao lado do que é mostrado.

Santa - Qual a qualidade do produto fabricado no Vale?

Celaine - Qualidade técnica temos. O que falta é a parte de criação. O Rio de Janeiro, por exemplo, tem crescido com produtos de personalidade. E é essa personalidade daqui que eles querem de lá fora, no exterior. Não querem imitações. Na indústria, a criação tem parâmetros. Não dá para sair fazendo qualquer coisa. Aí entra o conhecimento do profissional. Esse profissional precisa saber tecnicamente o que está fazendo, principalmente o processo. Alguns cursos ensinam levianamente o processo de produção, formando profissionais com pouco conhecimento a fundo.

Santa - No Twitter, você escreveu: “chega de crescer, vamos tratar de melhorar”. O setor têxtil também precisa disso?

Celaine - A ideia de progresso é distorcida. O que temos de buscar é a melhor qualidade de vida. A qualidade do produto, no caso da indústria. O consumismo criou nas pessoas uma ânsia de comprar por comprar. E aí não entra qualidade e, sim, quantidade. É preciso incutir uma cultura de ter o melhor. Na Alemanha isso é muito visível. Lá, eles têm orgulho não por ter as maiores coisas e, sim, as melhores.

Santa - Qual a expectativa do setor têxtil?

Celaine - Muito se fala que o Oriente é uma ameaça. Porém, a criatividade pode ser usada para burlar a crise. Nunca tivemos tanto poder aquisitivo. É preciso fazer com que este consumo volte para as coisas fabricadas no país.

Santa - A princípio, a Texfair Fashion está mantida para este ano. Qual sua opinião sobre ela ocorrer separadamente à Texfair Home?

Celine - Acho que o vestuário perdeu com isso. Não sei se afastá-lo da feira foi o correto. O Estado tem uma força que nunca percebeu, a do design. Temos que unir os setores. Aqui é produzida tanta coisa bonita, como os cristais, artefatos de madeira, por exemplo. Por que não juntar tudo isso num só lugar? Teríamos a força multiplicada, a chance de mostrar tudo o que de bom produzimos.

 

PATRICK RODRIGUES