Custo de insumos pressiona setores

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil

Por De São Paulo, de Porto Alegre e do Rio

O ano começou com pressões de custos generalizadas em setores da indústria, segundo relatos de líderes de associações e empresários ouvidos pelo Valor. Além da alta do dólar, cuja cotação mostrou ligeiro recuo recentemente, mas permanece perto de R$ 2, as empresas afirmam que o aumento da alíquota de importação para uma lista de cem produtos em outubro, que incluem insumos industriais importantes, está por trás desse movimento. Em alguns casos, os preços maiores de matérias-primas já foram repassados ao varejo.

Com o reajuste de preços das usinas em torno de 3,5% a 7% em janeiro, não houve como o setor de aço plano evitar repasse dessa ordem às indústrias consumidoras, segundo Carlos Loureiro, presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda). Loureiro diz que as siderúrgicas foram pressionadas em 2012 pela alta do dólar e dos preços do minério de ferro e do carvão, entre outros custos. "O aumento de custos obriga a elevar preços. A alta da tarifa de importação apenas permite esses repasses", diz Loureiro, para quem novas correções não estão descartadas, dependendo da evolução das cotações internacionais.

Principalmente por causa do câmbio mais desvalorizado, os associados da Abinee, entidade que reúne os fabricantes de material elétrico e eletrônico, estão relatando pressões nos preços de insumos e matérias-primas. A parcela de empresas que sentiu aumento de custos saiu de 40% em outubro para 49% em janeiro. Entre as matérias-primas importantes para o setor, estão o aço e o ferro fundido.

Fabricante de chassis para ônibus de pequeno e médio porte, caminhões leves, utilitários e tratores, a Agrale sentiu pressão de custos neste começo de ano. Em algumas linhas, conta o diretor-presidente Hugo Zattera, a alta nos preços de matérias-primas (especialmente aço) e componentes passou de 1% em janeiro. Parte deste aumento foi repassado, mas Zattera afirma que a concorrência "acirrada" no setor impede a recomposição completa dos preços dos produtos finais.

A Latina Eletrodomésticos, fabricante de bebedouros, lavadoras, purificadores e ventiladores, vem observando aumento nos custos desde o ano passado. Paulo Coli, vice-presidente da companhia, disse que a empresa enfrenta "desafios" ao negociar com fornecedores, principalmente, de componentes eletroeletrônicos, que são importados, depois que o dólar passou da barreira de R$ 2

O setor de plástico calcula que em janeiro e fevereiro os preços dos insumos aumentaram de 5% a 12% sobre os praticados no fim de 2012. A alta de alíquotas nas resinas importadas contribuiu para essa elevação, diz José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Plásticos (Abiplast). Ele afirma que o avanço do preço foi sentido já no último trimestre de 2012. "Há também o impacto da desvalorização do real sobre os insumos importados, mas a elevação da alíquota de importação permitiu o repasse integral da diferença de câmbio", afirma Roriz.

Com 19 produtos incluídos na lista de proteção tarifária, a Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) afirma que o setor está espremido entre aumentos de custos de matérias-primas, com destaque para o gás natural, concorrência ainda pesada dos importados e problemas já conhecidos, que atingem toda a indústria, como preços mais caros de energia e infraestrutura deficiente. "Mesmo com o reajuste de preços, algumas empresas ainda estão no vermelho. A situação não está fácil", diz Fátima Ferreira, diretora de economia da associação.

O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Aguinaldo Diniz Filho, cita como principal pressão neste início de ano a alta do algodão, que pode representar 40% dos custos de uma indústria que produz jeans, por exemplo. O preço médio de fevereiro -R$ 1,81 por libra-peso - aumentou 4,5% em relação à média de janeiro, de acordo com a RC Consultores. Frente aos preços de dezembro, o avanço foi mais expressivo, de 15,1%.