Ação da Fazenda também mira reajuste menor

 

Por Alex Ribeiro e Edna Simão | De Brasília

O governo está agindo para desconcentrar os aumentos de preços que tradicionalmente acontecem no começo do ano, como tarifas de ônibus, numa tentativa de romper a dinâmica negativa atual em que reajustes em janeiro e fevereiro contaminam as expectativas inflacionárias do mercado financeiro para o ano como um todo.

É nesse contexto que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, procurou prefeitos e governadores ligados à base governista e à oposição para pedir o adiamento dos reajustes de tarifas de transportes públicos. Há também no governo a expectativa de que esses aumentos sejam mais moderados, repassando aos consumidores os ganhos que o setor de transporte urbano teve com sua inclusão no programa de desonaração da folha de pagamento.

 

Não se trata, afirmam fontes oficiais, de reprimir reajustes para maquiar os índices de inflação - todos aumentos necessários serão feitos ao longo do ano. A questão é a concentração dos reajustes que, logo no início do ano, cria um clima de pessimismo no mercado para o ano todo.

Em tese, os analistas do mercado deveriam guiar suas expectativas de acordo com o cenário futuro de inflação. Na prática, porém, vários estudos do Banco Central apontam que a inflação corrente tem uma forte influência sobre as expectativas. E, quando as expectativas saem de controle, acabam retroalimentando a inflação nos meses seguintes.

"Não estamos jogando nada para debaixo do tapete", disse uma fonte qualificada do governo, negando manobras para maquiar os índices de inflação. Uma evidência disso, afirma essa fonte, é que o governo decidiu manter o cronograma gradual de aumento do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre automóveis, um dos fatores que pressionam a inflação de janeiro.

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), disse anteontem que foi procurado por Mantega para adiar o reajuste da tarifa de ônibus de janeiro para, possivelmente, 1º de junho. Ontem, o governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB), disse que recebeu pedido semelhante para segurar a tarifa do metrô, que costuma ocorrer em fevereiro. Não foi tomada nenhuma decisão ainda, disse.

Na esfera do governo federal, a contribuição mais importante para aliviar a inflação do primeiro trimestre seria o adiamento do esperado aumento nos preços dos combustíveis. Ontem, o secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Antônio Henrique Silveira, declarou que o reajuste é "plausível" porque há uma defasagem de cerca de 7% nos preços, mas ponderou que não há nenhuma decisão a respeito.

Outro item que costuma pesar na inflação no começo do ano são os reajustes das mensalidades escolares. Mas seu deslocamento para outros meses do ano atrapalharia o planejamento financeiro dos estudantes.

Segundo apurou o Valor PRO, serviço de tempo real do Valor , a expectativa não é apenas o espaçamento dos reajustes de transportes urbanos ao longo do ano, mas também que eles ocorram em patamares menores. No ano passado, o governo incluiu o setor de transportes urbanos dentro da desoneração de contribuição previdenciária. Em vez de pagamento de 20% sobre a folha de pagamento, agora o setor paga uma contribuição sobre o faturamento.

Uma fonte do governo afirma que a medida garante também um alívio de caixa para as empresas, já que a data de recolhimento mudou. O governo espera que outros dos 41 setores que foram beneficiados com a desoneração, como o de transportes aéreos, promovam reajustes mais moderados neste ano. "A medida foi adotada para ampliar a competitividade da economia e a formalização do mercado de trabalho", afirma uma fonte. "Mas também tem impactos positivos sobre os índices de inflação."

Mesmo com todo o esforço para desconcentrar os aumentos no começo do ano, porém, o mercado financeiro projeta uma inflação relativamente alta para o mês, da ordem de 0,8%.

Ao descontaminar as expectativas de inflação do repique de preços do começo do ano, o governo espera que o mercado financeiro passe a se orientar por um cenário em que não haveria desequilíbrios entre oferta e demanda que levem a um ambiente de alta sustentada de preços. O Banco Central projeta uma expansão do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,3% até o terceiro trimestre, o que significa que a economia vai operar com certa margem de ociosidade até dentro das estimativas mais pessimistas sobre o ritmo de expansão da oferta agregada.

Há alguns dias, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, declarou em nota oficial que espera que haja um recuo da inflação nos meses seguintes.

O governo mantém o cenário de convergência do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o centro da meta de 4,5%. A área econômica estima que "reajustes menores de vários produtos e serviços neste ano" - o que inclui transportes coletivos, passagens aéreas, manufaturados e insumos - puxados, principalmente, pela desoneração da folha de pagamento e redução dos custos da energia elétrica, contribuam com a redução da inflação. Também não devem se repetir fatores negativos, como a depreciação cambial de 30% ocorrida desde fins de 2011.

"A inflação vem apresentando um comportamento conforme o esperado, depois de atingir 6,5%, em 2011, caiu para 5,84%, em 2012, e é assim esperada nova redução na taxa para 2013. Portanto, está em linha com a política econômica desenhada pelo governo e esperada pelo mercado de queda continuada convergindo para o centro da meta", disse uma fonte da área econômica.


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