Celulose solúvel atrai novos investidores

Veículo: Valor Econômico
Seção: Empresas

A Bahia Specialty Cellulose (BSC), subsidiária da indonésia Sateri Holdings Limited, e a Jari Celulose, que se prepara para entrar no mercado de celulose solúvel, estão em busca de potenciais parceiros ou sócios estratégicos para suas operações no Brasil, conforme apurou o Valor.

No caso da BSC, que se diz como única produtora latino-americana de celulose solúvel de alto teor de pureza de eucalipto, o objetivo da parceria é garantir contratos de fornecimento de longo prazo da matéria-prima. Conforme as fontes, a empresa, que integra o conglomerado do magnata indonésio Sukanto Tanoto, estaria em tratativas com um grupo indiano.

Já a Jari, do empresário Sergio Amoroso, estaria em busca de uma oportunidade para replicar no mercado de celulose solúvel o modelo acertado em outubro com a International Paper (IP) para o negócio de embalagem. Com investimento de R$ 950 milhões da IP, as empresas vão constituir uma joint venture, controlada pela multinacional, que receberá as fábricas de papel e caixas de papelão da Jari.

Pouco depois de assinar a operação com a IP, a empresa do Grupo Orsa anunciou a paralisação da unidade de celulose de eucalipto do Vale do Jari, região amazônica entre os Estados do Pará e do Amapá. Com capacidade instalada para 410 mil toneladas anuais, a fábrica, considerada de alto custo, estará inativa a partir de janeiro. A decisão foi tomada em razão da baixa escala e da necessidade de modernização dos equipamentos.

A notícia foi bem recebida por outros produtores brasileiros de celulose de eucalipto, pois haverá forte ampliação na oferta global nos próximos meses. Em relatório desta semana, a Fitch Ratings ressaltou que a capacidade instalada mundial de celulose de mercado será eleva em 8% em um período de 12 meses - ainda em novembro entra em operação a fábrica de 1,5 milhão de toneladas por ano da Eldorado Brasil Celulose -, enquanto a demanda crescerá 2%.

Ao mesmo tempo, gerou preocupações na comunidade do Jari, diante do risco de dispensa de cerca de 6 mil funcionários diretos e indiretos da fábrica. A imprensa local informou que, ao Sintracel, sindicato que representa os trabalhadores da indústria de celulose e papel do Amapá, a Jari disse que serão necessários dez meses para ampliação da fábrica. Nesse período, conforme o sindicato, os funcionários não estariam vinculados à empresa e não há garantia de retorno.

Uma fonte da indústria, contudo, afirmou que os planos da empresa, reunidos no "Plano de Modernização Administrativa e da Planta de Produção", incluem a conversão da unidade para a produção de celulose solúvel. Com alto teor de pureza, a matéria-prima tem ampla gama de aplicações nas indústrias de alimentos, farmacêutica e têxtil, entre outras.

A Jari já teria em mãos dados sobre o mercado mundial de celulose solúvel, um escopo do que seria a unidade convertida e estaria avaliando a melhor maneira de entrar nesse segmento - sozinha ou com um sócio estratégico, aos moldes da sociedade anunciada recentemente pelo Grupo Orsa com a IP.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Jari informou que, neste momento, está concentrada na parada de produção da fábrica de celulose em Monte Dourado (PA) e medidas necessárias, entre as quais as referentes à área trabalhista. Após essa fase, que deve se estender por 90 dias, iniciará os estudos sobre "novas possibilidades" para a unidade.

Na BSC nenhum porta-voz foi localizado até o fechamento desta reportagem. Antiga Bahia Pulp - que foi constituída em 2003, a partir da compra da Klabin Bacell e da Copener Florestal pela Sateria -, a empresa recebeu a nova denominação em 2010. Em 2008, com investimentos de mais de R$ 1 bilhão, a BSC implantou sua segunda linha de produção em Camaçari (BA), elevando a capacidade instalada de 115 mil toneladas anuais para 485 mil toneladas por ano.

O mercado mundial de celulose solúvel é classificado como "volátil", especialmente em razão das flutuações do preço do algodão - com a alta da commodity, fabricantes de tecidos migram para outros tipos de fibra, incluindo as produzidas a partir da celulose solúvel. A perspectiva, porém, é a de crescimento nos próximos anos. Em 2011, a capacidade instalada global era de 5,4 milhões de toneladas, concentradas na América do Norte, África do Sul, China e Brasil.

Na primeira metade daquele ano, os preços no mercado à vista chegaram à casa de US$ 3 mil - bem acima dos preços de referência da celulose de eucalipto -, em razão da forte demanda asiática, de problemas na colheita do algodão e da alta nos preços de outras matérias-primas das indústrias têxtil, farmacêutica e de produtos de uso pessoal.

Mundialmente, as maiores produtoras desse tipo de celulose são Sappi, Birla, Sateri, Rayonier, Buckeye e Lenzing, com 60% da produção. Novas fábricas já foram anunciadas na China, na esteira da expansão da indústria têxtil.