Balança comercial encolhe com a desaceleração global

Veículo: Valor Econômico
Seção: Opinião

 Apolítica americana de afrouxamento monetário, tão criticada pelo governo, mostrou seu lado positivo, ironicamente, na balança comercial brasileira. Bem ou mal, essa política está ajudando a manter os Estados Unidos à tona, apesar do impacto no câmbio global. Com a previsão de um crescimento relativamente morno de 2% neste ano - mas até acima do 1,6% esperado para o Brasil pelo Banco Central (BC) -, os americanos voltaram a comprar mais produtos brasileiros, especialmente manufaturados, amenizando a tendência de queda generalizada das exportações.

O saldo de setembro da balança comercial brasileira caiu 16,8%, para US$ 2,6 bilhões, em comparação com igual mês de 2011. As exportações diminuíram 5,1%, para US$ 19,99 bilhões; e as importações, 4,6%, para US$ 17,44 bilhões. No acumulado do ano, o saldo comercial despencou 31,8%, para US$ 15,7 bilhões. As exportações encolheram 4,9%, para US$ 180,597 bilhões; e as importações, 1,2%, para US$ 164,87 bilhões.

Foi o crescimento da venda de manufaturados que evitou a queda mais significativa das exportações brasileiras no mês passado e isso foi possível por causa dos negócios com os Estados Unidos. Em setembro, as vendas para os Estados Unidos cresceram 4,8% e, de janeiro a setembro, 11%, indo na contramão da trajetória de queda das exportações totais do país. Cerca de 45% dos embarques para os americanos são manufaturados, incluindo de suco de laranja, óleo combustível, etanol e celulose a ferro fundido, motores e turbinas de aviões.

Os Estados Unidos compensaram, assim, a forte queda dos negócios do Brasil com a Argentina, tradicional cliente dos manufaturados brasileiros, que praticamente fechou suas fronteiras neste ano por conta das dificuldades no balanço de pagamentos. A Argentina reduziu em cerca de 25% as compras do Brasil em setembro, em comparação com o mesmo mês de 2011, o equivalente a US$ 700 milhões, e em 20% neste ano, em função das barreiras introduzidas, muitas delas informais. Sua participação nas exportações brasileiras caiu de quase 9% para 7,5%. O Brasil reagiu de modo semelhante, com barreiras técnicas e sanitárias que provocaram a queda de 6,5% nas importações de produtos argentinos nos primeiros nove meses deste ano, em comparação com o mesmo período de 2011.

Os dois países têm negociado desde julho, conseguindo uma melhora das relações comerciais bilaterais. Em setembro, as vendas ao país vizinho aumentaram 7,4% em comparação com agosto. Mas não dá para esperar muita coisa, uma vez que os limites são impostos pelas dificuldades argentinas, que se aprofundam cada vez mais. Por causa do peso da Argentina no Mercosul, as exportações brasileiras para o bloco diminuíram 18,2% em setembro e 12,6% de janeiro a setembro.

Até os negócios com a locomotiva do mundo, a China, diminuíram em função da perda de fôlego do país asiático, cujo Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 7,5% neste ano, deixando para trás os picos de 10%. Com a economia crescendo menos, Pequim cortou as compras de commodities, que compõem a maior parte dos embarques brasileiros para o país. As exportações brasileiras para a China caíram 23,1% em setembro e 3,8% no acumulado do ano, com a redução das compras de açúcar em bruto, polímeros plásticos, soja em grão, minério de ferro, celulose, ferro-ligas e produtos siderúrgicos.

Mas a China continua como o maior destino das exportações brasileiras (e maior fonte de importações também), com US$ 32,3 bilhões neste ano, seguida pelos Estados Unidos, com US$ 20,7 bilhões, e pela Argentina, com US$ 13,5 bilhões.

A perda de vitalidade do comércio exterior não é um problema exclusivo do Brasil. A desaceleração está reduzindo os negócios no mundo todo. Há a expectativa de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) vai anunciar a redução do crescimento global previsto para este ano, de 3,5% para 3%, na reunião da próxima semana, em Tóquio. A Organização Mundial do Comércio (OMC) já cortou para 2,5% a previsão de crescimento do comércio global de bens neste ano, a metade dos 5% de 2011 e muito menos do que os 14% de 2010.

Nesse cenário, de nada adiantam barreiras comerciais e elevação de tarifas, motivo de questionamento do Brasil na OMC que, de resto, cada vez mais se assemelha à casa do velho ditado, em que falta pão, todo mundo grita e ninguém tem razão.