Dados fracos impõem \'otimismo seletivo\' para as ações de varejo

Regis Filho/Valor / Regis Filho/Valor Prado, da Fator: opção por varejo de alimentos, menos dependente do crédito.

O ritmo fraco da economia brasileira e o aumento dos níveis de inadimplência têm colocado em xeque a sustentabilidade do crescimento da demanda doméstica - e essa perspectiva já respinga sobre a bolsa. Se, em meio ao cenário externo pouco animador, o varejo nacional ainda representa um refúgio para os investidores, os analistas têm sido mais seletivos, peneirando entre os nichos do setor que ainda reúnem potencial de expansão atrativo e bons preços em bolsa.

A diminuição no otimismo com as empresas voltadas ao consumo interno começou a ganhar força em junho, com a divulgação do PIB do primeiro trimestre, que frustrou as expectativas, com alta de apenas 0,2% em relação aos três meses anteriores, considerando os dados com ajustes sazonais. Desde o começo do ano, a previsão do mercado para o PIB de 2012 passou da casa dos 3,5% para apenas 2%, de acordo com a pesquisa Focus do Banco Central (BC).

O aumento nos níveis de inadimplência adicionou mais pressão ao caldeirão do consumo, sinalizando que a capacidade das famílias em assumir mais dívidas pode estar próxima da saturação. De acordo com o BC, em maio, os financiamentos com pagamentos em atraso há mais de 90 dias atingiram 8%. Nos financiamentos de faturas de cartões de crédito, o índice de pagamentos atrasados, de 29,49%, foi o maior da série iniciada em 2000.

A Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada ontem pelo IBGE, só reforçou o cenário. As vendas do comércio varejista recuaram 0,80% em maio sobre abril, na série com ajuste sazonal, frustrando até as expectativas menos otimistas para o indicador.

Entre os analistas ouvidos pelo Valor, a percepção de que os níveis de endividamento devem sofrer algum ajuste nos próximos meses é unânime. A expectativa é que haja uma pausa para que as famílias quitem parte das dívidas, o que arrastaria uma recuperação mais pronunciada das empresas cujas vendas dependem mais do crédito para o fim do ano.

"Para impulsionar o consumo, é preciso renda, emprego e disposição. Hoje, nós temos renda em ascensão, um bom nível de emprego, mas não temos uma população tão propensa a consumir bens, sobretudo duráveis", afirma Gustavo Pires, da XP Investimentos. De acordo com o analista, no entanto, ainda há bolsões de oportunidade no setor de consumo, como as varejistas de alimentos, como Pão de Açúcar, a produtora de massas e biscoitos M. Dias Branco e a fabricante de alimentos processados Brasil Foods. "São boas opções para capturar a expansão da renda, sem esbarrar nas restrições ao crédito", avalia.

Renato Prado, da Fator Corretora, também concentra suas fichas nas empresas em que os consumidores desembolsam menos dinheiro por compra, como Pão de Açúcar e Lojas Americanas. "O consumo desses setores é mais estável e depende menos de variações na disponibilidade de renda", ressalta.

Para o analista, o crescimento das receitas de varejistas de eletroeletrônicos, como Magazine Luiza e B2W, deve ser comprometido pela baixa disponibilidade das famílias em assumir mais dívidas. "Além disso, o próprio modelo de negócios dessas empresas, com maior competição e pressão por descontos, é um ponto negativo, pois pressiona as margens", acrescenta.

A reversão do humor dos investidores em relação ao setor de consumo fica evidente no desempenho das ações do segmento têxtil, cujas receitas têm desacelerado desde agosto do ano passado.

Do começo do ano até abril, as ações da Hering, por exemplo, acumulavam alta de 45,7%. Desde então, as ações vem em trajetória de queda e amargam um recuo de 21,3%, voltando aos níveis de janeiro. "A retomada das vendas está demorando mais para acontecer do que o que esperávamos. Com isso, o investidor fica mais cético e vai esperar resultados para voltar a entrar no papel", explica Prado. O analista não acredita numa retomada do setor ainda neste ano e espera resultados ainda fracos para o segundo trimestre.

A recomendação do Fator para os papéis de Lojas Renner e Marisa é de manutenção e, para Hering, de venda. Recentemente, Goldman Sachs e JP Morgan também tiraram suas recomendações de compra para a Hering e passaram a recomendar aos investidores a manutenção das ações.

Priscilla Tambelli, do BB Investimentos, é mais otimista em relação ao segmento de eletrodomésticos, em virtude dos incentivos concedidos pelo governo, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para artigos de linha branca, que, em sua avaliação, devem manter o consumo aquecido.

Mas, apesar disso, diante da aversão ao risco motivada pelo cenário internacional turbulento, a aposta da analista para julho é em empresas mais "defensivas", como a rede de farmácias Raia Drogasil, já que o consumo de medicamentos depende menos de variações na renda. "O investidor está cauteloso e não está disposto a 'comprar' o risco de histórias de crescimento dependentes da atividade", ressalta Nataniel Cezimbra, chefe de pesquisa da corretora do BB.

Outro nicho no setor de consumo relativamente blindado ao crédito é o comércio considerado "de luxo", avalia Ricardo Martins, chefe de análise econômica da Planner Corretora. "Nos segmentos de alta renda, você não precisa de crédito farto para manter a demanda. Empresas como Le Lis Blanc e Arezzo mantêm um nível de consumo, independentemente de oscilações pontuais de renda", afirma.

Os analistas seguem confiantes também no mercado de shopping centers. Em relatório divulgado no mês passado, os analistas Marcelo Motta e Adrian Huerta, do JP Morgan, assinalam que, mesmo que as vendas do varejo desacelerem, o crescimento da renda e a sofisticação do consumo da classe C ainda abrem espaço para o crescimento da participação dos shoppings no varejo total - hoje, essa fatia é de apenas 18%.

Os aluguéis pagos pelos lojistas às administradoras, como BR Malls, Multiplan, Iguatemi e Sonae Sierra, são outro fator de conforto para o setor, aponta o JP Morgan, pois representam, ao mesmo tempo uma garantia de receita e uma blindagem contra a inflação.

Apesar de também ser otimista em relação às administradoras de shoppings no curto prazo, Martins, da Planner, pondera que, se a desaceleração econômica for mais pronunciada do que o inicialmente estimado, até mesmo esse segmento deve ser afetado. "O lojista, que está na ponta da cadeia, suporta a queda nas vendas até certo ponto. Se a crise for mais forte do que estamos estimando, no longo prazo, alguns podem não conseguir sustentar o peso do aluguel dos shoppings", alerta.