Zara muda logística no Brasil

Newscom / Newscom Ortega, fundador da Inditex, e sua filha Marta, que está passando pelas várias áreas e marcas do grupo - Zara, Zara Home, Bershka, Stradivarius, Massimo Dutti, Pull & Bear, Oysho e Uterqüe.

Na Galícia, região de montanhas verdes e costa recortada, onde as águas mais frias do Atlântico abastecem os espanhóis com delícias como bogavantes e zamburiñas, a Inditex - a maior empresa da Espanha em valor de mercado e controladora da varejista de moda Zara - aumenta o faturamento e o lucro seguindo uma fórmula aparentemente simples: produção de roupa que a clientela quer comprar, a preços razoáveis, com renovação constante das vitrines. Para saber no que exatamente a consumidora quer gastar seu dinheiro, na sede da Inditex, em Arteixo, a equipe que sugere os desenhos das roupas senta em frente à equipe comercial. Esses dois times, juntos, decidem o que produzir e quanto de cada peça deve ser despachado para cada uma das mais de 5,6 mil lojas, em 85 países. E a distribuição é centralizada na Espanha. Esse sistema, no entanto, está prestes a mudar, pelo menos no Brasil. O país terá um novo centro logístico, entre setembro e outubro deste ano, e vai enviar diretamente, sem passar pela Espanha, roupas para Argentina, Chile, Uruguai, Peru, África do Sul e Austrália.

Hoje a Inditex possui uma área para estocagem em Barueri (SP), mas ficou pequena para a operação brasileira e demais países do mercado que a empresa chama de hemisfério sul - são cerca de 60 lojas, sendo 34 no Brasil. "Temos um armazém em São Paulo, mas sem muita tecnologia. Queremos que fique mais moderno, para que seja nosso centro de distribuição na América do Sul", diz Jesús Echevarría, executivo-chefe de comunicação e de relações institucionais da Inditex. Uma área entre 40 mil m2 e 50 mil m2 foi alugada pela Inditex em Cajamar (SP) e está sendo equipada com sistemas que replicam, em menor escala, o que é feito no centro logístico visitado pela reportagem em Arteixo. Há, basicamente, dois grupos de equipamentos: um para a roupa que vai para a loja pendurada em um cabide (como um blazer ou uma camisa de seda) e outro para a roupa que pode ir dobrada (uma calça jeans ou uma camiseta).

Antes de ir para o cabide, o blazer é passado a ferro por um time de mulheres vestidas com aventais verdes e também são elas que checam se há fios soltos ou defeitos, penduram a etiqueta do preço e grampeiam o alarme (que evita que a consumidora saia da loja sem pagar). Os blazers são, então, colocados em cabides, formando longas filas dentro do enorme galpão. Passam por uma máquina que os veste com um plástico transparente e seguem pendurados, à espera dos pedidos das lojas. A roupa que pode ser dobrada já chega em sacos plásticos no centro logístico. Os dois tipos de roupas passam por equipamentos que fazem a leitura de seus códigos e os encaminham para suas respectivas lojas, em caminhões ou aviões. Esse processo é o mesmo nos nove centros de logística que Inditex possui na Espanha. No Brasil, a leitura dos códigos deverá ser feita por rádio-frequência.

Uma área entre 40 mil m2 e 50 mil m2 foi alugada em Cajamar (SP) para replicar sistemas adotados na Espanha

O valor do investimento no Brasil não foi divulgado. A empresa deve investir cerca de € 950 milhões neste ano, em vários projetos. Em Arteixo, estão sendo gastos € 100 milhões para ampliar a área onde trabalham cerca de 300 designers de roupas da Zara e funcionários da equipe comercial. A ampliação permitirá contratar mais 400 pessoas. Ao todo, na matriz, trabalham 4 mil pessoas, sendo mil na administração, que tem no topo o executivo Pablo Isla, que substituiu o fundador da empresa Amancio Ortega em 2011 (ver abaixo). Outra operação logística de grande porte, de € 190 milhões, está programada para ser inaugurada em setembro em Tordera (Catalunha), onde a Inditex terá uma plataforma logística para a marca Massimo Dutti, de roupa mais clássica, para homens e mulheres.

Cada loja do grupo, que além da Zara, possui mais seis marcas de roupas e acessórios, deve ser abastecida duas vezes por semana, com peças novas - as lojas não têm estoque e o consumidor deve ter a sensação de que se não comprar no dia em que vê o modelo na vitrine, corre o risco de ficar sem ela. Os funcionários em Arteixo - e Echavarría diz que não é uma exceção - orgulham-se de dizer que o prazo para atender um pedido feito para uma loja é cumprido em no máximo 36 horas, por caminhão (na Europa), e 48 horas, por avião (para o resto do mundo).

No Brasil, cujo sistema tributário, para produtos importados e nacionais, é considerado um dos mais complexos do mundo e cujo desembaraço alfandegário não é famoso pela rapidez, o ciclo é um pouco mais longo. A nova plataforma logística pode ajudar a deixar o processo de distribuição no país mais ágil. A produção de roupa feita no Brasil responde por 1% do total fabricado para a Inditex. Outros 51% são produzidos na Espanha, Portugal, Marrocos, Itália e Turquia - países considerados próximos à matriz e responsáveis pelas peças mais sofisticadas. Os demais 49% são feitos no resto do mundo, com destaque para a Ásia. Do que é produzido no Brasil, 60% destinam-se a outros países da América do Sul e às cinco lojas que a Inditex tem na Austrália e na África do Sul - os 40% restantes ficam com os brasileiros.

A empresa, considerada a maior varejista de moda do mundo, tem 11 fábricas próprias e 1,4 mil fornecedores - desde pequenas empresas, como a Incoplancor, que emprega 80 pessoas em Arteixo e produz camisas e almofadas para a Zara, até gigantes asiáticas como a Gold Fame, que faz peças de tricô no Camboja para Zara, GAP e H&M e tem 10 mil funcionários.

Cada loja deve ser abastecida duas vezes por semana com peças novas - os pontos de venda não têm estoque

Juan Campos, um dos sócios da Incoplancor, levanta os olhos e as mãos para o céu nublado da Galícia e agradece por ter a Inditex como cliente. "Estamos com taxa de desemprego de 20% em Arteixo. No setor de construção está muito forte, mas no setor têxtil não há crise. Ainda bem que trabalhamos para a Inditex", diz ele. Na cidadezinha montanhosa de Arteixo há, de fato, galpões industriais de aparência empoeirada, sem muita atividade aparente. Em Coruña, cidade vizinha, de maior porte, e onde a maior parte dos empregados da Inditex mora, lê-se várias placas de "aluga-se" em pontos de comércio fechados.

Campos, por sua vez, investiu, recentemente, € 250 mil em uma máquina de cortar tecidos, importada dos Estados Unidos, comprou outra, portuguesa, que permite fazer uma costura interna sem rebarbas e o equipamento que põe a capa plástica sobre a roupa pendurada no cabide. Campos compra os tecidos, mas quem negocia os preços com a tecelagem é a Inditex e a escala de pedidos desta, claro, joga o custo mais para baixo. A funcionária responsável por receber os moldes das roupas enviados pela Inditex e colocá-los sobre o tecido de forma que haja pouco pano jogado fora - esse quebra-cabeça é feito com a ajuda de um computador - recebe um salário de € 1,4 mil por mês. E as costureiras, cerca de € 1 mil.

Essa estrutura da Inditex, enxuta e que busca rapidez na produção e na distribuição, tem se mostrado boa para o negócio. Desde que abriu o capital em bolsa, as vendas aumentaram em quatro vezes, para € 13,8 bilhões em 2011. O lucro tem crescido - no primeiro trimestre deste ano subiu 30%, para € 432 milhões. No mesmo período, a receita aumentou 15,4%, para € 3,4 bilhões. Mas 70% das vendas ainda são feitas na Europa, que enfrenta uma séria crise e a Espanha, que responde por 25% da receita, está estagnada. O presidente da Inditex, Pablo Isla, está apostando pesadamente na Ásia, onde abriu 179 lojas em 2011, sendo 156 a China. O número total de lojas a ser aberto neste ano gira em torno de 500, sendo de 6 a 8 no Brasil.

Em dois meses, os chineses poderão comprar peças da Zara pela internet. A Zara.com já está em 18 países da Europa, mais Estados Unidos e Japão. Ainda não há data definida para o Brasil, mas o plano é levar o sistema de vendas on-line a todos os 85 países em que a Inditex está.

Veículo: Valor Econômico
Seção: Empresas