Acordo com a China numa hora dessas

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil
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A Argentina é o país que, em todo o mundo, mais aplica barreiras aos produtos chineses, e o Brasil vem logo atrás, queixou-se uma graduada funcionária chinesa a jornalistas latino-americanos que visitaram a China há duas semanas. Dias depois, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, visitou o Cone Sul e, em teleconferência patrocinada por uma entusiasmada Cristina Kirchner, anunciou a intenção de negociar um acordo de livre comércio com o Mercosul. Para quem desconhece os movimentos por trás das cenas, parece haver alguém com esquizofrenia nesse namoro entre países. Mas há uma boa explicação, que traz preocupações no Brasil.

É mesmo desafiador entender o que leva Brasil e Argentina, temerosos da competição chinesa, a celebrar um acordo que a China vê como um passo para o futuro tratado de livre comércio. Mas intrigante é saber, por conversas com diplomatas e funcionários graduados brasileiros e argentinos, que não há planos para nenhum acordo de redução de barreiras aos produtos chineses, nem para um futuro distante.

Imaginar que o anúncio de tal acordo com os chineses pode incentivar outros potenciais parceiros, como a União Europeia, a flexibilizar exigências na mesa de negociações comerciais é subestimar a capacidade de análise dos europeus. Eles sabem bem dos limites ancorados no protecionismo crescente do Mercosul. O que não sabem é que, já na preparação da reunião do Mercosul encerrada neste fim de semana, ficou clara a razão da aproximação com os chineses: a necessidade argentina de financiamento para cobrir seu crescente déficit no balanço de pagamentos.

Avanço chinês na América do Sul ganha mais fôlego.

O governo brasileiro trabalhou nos bastidores para reduzir a abrangência do acordo "estratégico" a ser firmado com os chineses e conseguiu, ao fim, um daqueles belos documentos vazados em linguagem diplomática, suficientemente vaga para agradar a todas as partes.

Se o acerto com a China não abre portas a um acordo comercial, o acordo sanciona, porém, o impressionante movimento chinês em direção à América do Sul, quintal relegado dos Estados Unidos. O avanço chinês, temido no terreno comercial, se dá também no campo financeiro, de serviços e de investimentos.

Sem acesso ao mercado internacional, a Argentina precisa de dinheiro para equilibrar suas contas externas e não por outro motivo tenta, a patadas, fechar as alfândegas a produtos importados, inclusive dos sócios no Mercosul. A China agora oferece financiamentos e investimentos, música para os argentinos, ainda que promessas anteriores de investimentos chineses tenham se desmanchado no ar.

Curiosamente, o desespero comercial argentino beneficiou os chineses onde mais doeu no Brasil: segundo dados da consultoria Abeceb.com, as vendas de calçados brasileiros à Argentina caíram 37,5%, com a ajuda das barreiras do secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, que, no entanto, deixaram passar um aumento de 36% nas importações de origem chinesa. E, enquanto as vendas de têxteis e confecções brasileiras caíram quase 23% entre janeiro e maio, a China aumentou para lá as vendas dos mesmos produtos em 34%.

Já inconformados com o peso da competição chinesa, os empresários brasileiros veem com apreensão a expansão da China na área de serviços de infraestrutura e investimentos. Um dos presentes de Wen Jiabao a Cristina Kirchner, no encontro em Buenos Aires, foi a promessa de investir US$ 11 bilhões na Belgrano Cargas, a estragada linha ferroviária que corta o país e que os Kirchner prometem trazer de volta à vida desde 2006.

Na terça-feira, em um encontro, em São Paulo, exportadores de serviços do país discutiram com preocupação a oferta chinesa de US$ 10 bilhões para financiar obras de infraestrutura na América do Sul. "A China quer, com os contratos de infraestrutura, exportar chineses como mão de obra e bens de valor agregado, e ocupar espaço", avalia o vice-presidente executivo da Associação de Comércio Exterior brasileiro, José Augusto de Castro. "Para o Brasil, que participa com 5% das obras de infraestrutura no Mercosul, preocupa, e muito".

"É a fome com a vontade de comer: de um lado a Argentina fragilizada, com dificuldades nas contas externas: de outro, a China com US$ 3,5 trilhões em caixa", comenta o diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, Roberto Giannetti.

Na costa do Pacífico, na América do Sul, empresas brasileiras já sentem o bafo chinês, com investimentos de US$ 20 bilhões da China em obras de infraestrutura. "Os chineses estão em transição na economia, vão contar cada vez menos com a exportação como alavanca e encorajar o mercado interno", comenta o presidente do Conselho Brasil-China, Sérgio Amaral, ex-ministro do Desenvolvimento. "Eles não querem continuar comprando títulos americanos, e saem às compras pelo mundo, investindo na Europa em busca de tecnologia, e na África e America Latina".

Essa movimentação, lembra Amaral, ocorre em um momento de "desanuviamento" nas relações entre China e Brasil, que trocaram conversas sobre respectivos atritos comerciais e prometeram esforços de parte a parte (o sinal mais visível foi a retomada de compras de aviões da Embraer). O câmbio chinês vem se valorizando, o brasileiro se deprecia e os dois países procuram uma articulação cada vez maior, por meio do grupo conhecido como Brics.

A ameaça do novo presidente paraguaio, Federico Franco, de reagir à suspensão do Mercosul firmando acordo com a China pode ser um teste para a amizade sino-brasileira, e aumenta o cacife chinês.

Não interessa ao Brasil extrapolar para um grupo maior, como o Mercosul, os entendimentos que já faz bilateralmente com os chineses, até para não contaminá-los com externalidades como a provável crise argentina. Mas a China parece ter outros planos. E já notou que o Mercosul pode ser útil a eles.

Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras.

E-mail - sergio.leo@valor.com.br