Medo da crise leva indústria a cortar custos

Veículo: O Estado de S. Paulo
Seção: Economia
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A piora do cenário internacional colocou a indústria brasileira na defensiva. A prioridade é arrumar a casa, cortar custos e recuperar os índices de produtividade. Até o dinheiro para investir em máquinas e equipamentos terá o objetivo de melhorar a competitividade das empresas, e não elevar a capacidade instalada, mostra pesquisa da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), com 1.202 empresas.

Dos 14 setores ouvidos, 9 elegeram como principal estratégia em 2012 a redução dos custos e 3 acreditam que a melhor saída será aumentar a produtividade. Há ainda aqueles que apostam no aumento da participação de mercado para se recuperar. "Poucas empresas estão investindo para elevar a produção. A maioria quer recuperar a competitividade", destaca o diretor da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho, responsável pelo trabalho.

As empresas do setor de veículos e equipamentos de transportes são as mais dispostas a cortar custos. Cerca de 70% disseram que essa é a principal prioridade em 2012 - além de reduzir em 13% o volume de investimentos. Por outro lado, querem aumentar o faturamento, melhorar a rentabilidade e se adequar aos produtos importados.

Para o sócio-diretor da auditoria KSI Brasil, Tethuo Ofassawara, as empresas estão em processo de adaptação. Em 2010, apostaram num cenário que não se confirmou em 2011. "As companhias estão meio inchadas, mas só agora caiu a ficha de que os resultados não aconteceram como previam."

O executivo diz que algumas empresas já conseguiram readequar o custo de pessoal, que nos últimos anos subiu de forma expressiva. "Estão trocando funcionários mais caros pelos mais baratos, algo que no ano passado era difícil de imaginar diante da escassez de mão de obra." A tendência, avalia, é esse processo continuar nos próximos meses.

Além da demanda mais fraca no mercado externo, a invasão de produtos chineses é o que tem promovido toda essa revisão na indústria brasileira. "Queria que uma empresa chinesa se instalasse ao lado da minha fábrica com as mesmas condições e estrutura que o Brasil exige. Não suportaria um mês", diz o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit), Aguinaldo Diniz, presidente da Cedro.

O setor reduziu em quase 20% o volume de investimento em máquinas e equipamentos este ano. "Precisamos ter expectativa de demanda para investir." Segundo ele, no ano passado o setor têxtil teve queda de 14,4% e o vestuário, 5,4%. Enquanto isso, o varejo subiu 10%. Ou seja, o mercado nacional foi atendido por produto importado.

Roriz Coelho, da Fiesp, destaca que não adianta as empresas trabalharem sozinhas para recuperar competitividade se o governo não fizer a parte dele. As empresas continuam reclamando do excesso de carga tributária, juros ainda altos e custos elevados de energia. "Somos abastecidos pela segunda energia elétrica mais cara do mundo. Precisamos de condições igualitárias para crescer", diz Diniz. Segundo ele, hoje a energia elétrica representa o terceiro maior custo para a indústria têxtil, abaixo apenas do algodão e da mão de obra.