Presença de firmas brasileiras na China ainda é tímida

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil
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Luis Ushirobira/Valor / Luis Ushirobira/Valor

Claudio Frishtak, consultor do CEBC, diz que é preciso paciência para conquistar a confiança dos chineses.

A presença das empresas brasileiras na China ainda e tímida, como evidencia o baixo volume de investimentos em atividades produtivas no país asiático, mostra estudo inédito do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Até 2010, o estoque investido por companhias do Brasil na economia chinesa somava US$ 573 milhões, segundo números do Ministério do Comércio da China, uma fração do US$ 1,1 trilhão recebido pelo país até aquele ano.

Mudar esse quadro e ampliar o espaço das empresas brasileiras na China é difícil, mas não impossível, exigindo persistência empresarial e política, assim como uma visão de longo prazo que fortaleça relacionamentos com os parceiros chineses, diz o economista Claudio Frishtak, consultor do CEBC e responsável geral pela pesquisa.

O estudo identificou 57 companhias brasileiras com presença na China, das quais 51% são prestadoras de serviço, como o Banco do Brasil, 28% produzem bens manufaturados, como Weg, Embraer e Embraco, e 21% são ligadas a produtos primários, como mineração e energia, caso da Vale e Petrobras.

A própria forma de atuação na China dá conta da timidez da presença brasileira - 40,4% das companhias brasileiras têm escritório de representação no país asiático, enquanto apenas 14% têm unidades de produção por lá, ressalta Frischtak. Segundo ele, um dos fatores que explicam a presença tímida do Brasil na China é que, quando as empresas brasileiras se tornaram mais maduras para investir no exterior, após vários anos de estabilidade macroeconômica, já era mais complicado investir na China. A perda de terreno, desse modo, se deve em muitos casos a uma questão de timing.

Frishtak diz que uma das companhias mais bem sucedidas no país asiático é a Weg Motores, que chegou lá na década de 90, num momento em que a área de atuação da empresa era exatamente uma das que mais interessavam à China naquele momento. Nesse caso, o timing foi perfeito.

Um ponto importante é que os setores que o governo chinês encara como prioridade para receber investimentos estrangeiros diretos mudam ao longo do tempo, ressalta Frischtak. Nos anos 80, eram os segmentos de têxteis, calçados e brinquedos, e nos anos 90, carros, caminhões, computadores, celulares, máquinas, partes e componentes. Nesta década, é a vez das novas fontes de energia, energias renováveis, biotecnologia, veículos elétricos, nova geração de tecnologia da informação e da comunicação e máquinas, partes e componentes avançados.

Isso não quer dizer, porém, que só seja possível avançar nesses segmentos, diz André Soares, responsável pela pesquisa e análise do CEBC. Em setores em que o Brasil tem grande vantagem comparativa, há como ganhar espaço no país asiático. Ele cita o caso da Marfrig e da BR Foods, que no fim de 2011 e neste ano formaram joint-ventures com parceiros chineses para desenvolver uma rede de distribuição de seus produtos na China. "Essas empresas já vendiam seus produtos por lá, mas em uma escala menor do que devem vender agora que possuem essas parcerias", afirma ele, para quem a "diplomacia ativa" do Brasil nessa área também teve importância. "A corrida para investir na China não está perdida. O país, mesmo que não cresça mais 8% ou 9% ao ano, deve continuar como o polo mais dinâmico do crescimento global por 15 ou 20 anos", diz Frischtak.

As empresas entrevistadas no estudo ressaltaram a importância dos relacionamentos (o "guanxi") para ser bem sucedido no país asiático. É necessário paciência para conseguir a confiança dos chineses, enfatiza Frischtak, lembrando que o investidor na China tem no governo um parceiro constante, seja explícito, seja oculto. Aprender a lidar com isso é fundamental para ter sucesso por lá.

Intitulado "Empresas Brasileiras na China: Presença e Experiências", o estudo será divulgado na próxima terça-feira, em seminário a ser realizado em São Paulo, no auditório da sede do Banco do Brasil.