Economia estagnada já tem efeito de baixa na inflação, diz economista

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil
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A estagnação da atividade econômica, que já dura três trimestres, tem tido efeito de baixa sobre a inflação e garante um cenário tranquilo para os preços ao longo do ano. A avaliação é do economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, que cortou de 5,3% para 5% sua projeção para a alta acumulada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2012 após a surpresa positiva com o resultado de maio, divulgado hoje.

Os números mostraram que, no mês passado, o indicador oficial de inflação desacelerou de 0,64% para 0,36%. Vale esperava taxa de 0,47%, enquanto 11 instituições consultadas pelo Valor Data previam, em média, elevação de 0,43%.

O economista-chefe da MB vê sinais dos efeitos da atividade mais fraca na taxa acumulada em 12 meses, que, segundo ele, está caindo rapidamente e recuou de 5,1% para 4,99% entre abril e maio, dado mais baixo desde setembro de 2010.

Chama atenção, diz Vale, que essa trajetória venha acompanhada pela inflação de serviços, que passou de 7,99% para 7,59% entre abril e maio. A taxa mensal também mostrou desaceleração significativa no período, de 0,76% para 0,21%.

“A inflação de serviços é mais ligada à demanda doméstica, mas, no começo do ano, foi muito afetada pelo aumento do mínimo. Esse efeito já passou e a tendência é de crescimento muito fraco nos próximos meses”, afirma Vale. Na atual leitura, a perda de fôlego do item empregado doméstico puxou para baixo a inflação do grupo. A alta desse item recuou de 1,86% para 0,66%.

A crise externa também está dando sua contribuição à inflação doméstica via desvalorização de commodities, movimento que inibe maiores pressões em alimentos, acrescenta o analista da MB.

Neste mês, a inflação de alimentos e bebidas avançou de 0,51% para 0,73% porque as quebras de safras de grãos ainda estão afetando o preço do feijão e também devido a questões sazonais dos alimentos in natura, mas o cenário daqui em diante, para Vale, é de descompressão de preços.

Transportes

Outro sinal de demanda mais fraca, sustenta ele, está no grupo transportes, que recuou 0,58% em maio, após aumento de 0,10% em abril, com deflação maior em etanol (0,81% para menos 1,34%) e gasolina (menos 0,27% para 0,52%). A menor demanda por automóveis, além da entrada da safra da cana-de-açúcar, joga para baixo os preços dos combustíveis, segundo Vale.

Para os próximos dois meses, o indicador oficial deve seguir a trajetória de desaceleração, nas projeções da MB. Para junho, a previsão é de alta de 0,26%, com taxa menor em alimentos e vestuário e continuidade da deflação em transportes.

Em julho, o IPCA pode subir apenas 0,16% devido à revisão tarifária nos preços de energia, que deve colocar esse item em deflação, conclui.

(Arícia Martins | Valor)