'A moda como conhecemos não existe mais', diz estilista que desfila na SPFW

Veículo: O Estado de S. Paulo
Seção: E+
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Ronaldo Fraga é quase um poeta. Quem frequenta a São Paulo Fashion Week, evento que acontece entre os dias 11 e 16 de junho, na Bienal do Ibirapuera, pode até nem ter uma peça de roupa do estilista mineiro, mas não fica incólume a seus desfiles. Ora ele traz trabalhadores chineses para protestar ora escreve poemas pelos looks. Isso quando não chama cantores ou leva elementos da tradição judaica para a sala do evento. Tudo depende da tese que ele quer defender. A surpresa foi ele ter pulado a edição passada da SPFW e comentado que a moda estava em xeque. Em nenhum momento disse que abandonaria esse tipo de show, iria se dedicar a outros projetos. E voltaria. Voltou mesmo: seu desfile será no dia 12, às 20h30. Ele falou, com exclusividade, ao E+.

Você disse que ia pular uma edição da SPFW, mas na carta que enviou à imprensa disse que "a moda acabou". O que quis dizer exatamente com isso?

Na verdade, fiz uma pergunta que foi recebida como afirmação; e como vivemos em uma época na qual se lê somente as manchetes, não leram o meu texto, e esta colocação virou verdade absoluta (ri). Acho, sim, que a moda como conhecíamos e fazíamos não existe mais; e não deve existir neste mundo que nos cobra novas funções para as velhas coisas. E, principalmente, por tratar-se de um vetor - documento do tempo vivido, pergunto-me o tempo todo que tempo é esse. 

Como ficou sua relação com Paulo Borges (diretor criativo da Luminosidade, que comanda a São Paulo Fashion Week) e com os colegas depois de sua declaração?

O Paulo respeitou meu ponto de vista, concordando ou não, e os colegas que sentem e buscam novas possibilidades e caminhos para o ofício também. Já os que consideram que moda significa só roupa e desfile provavelmente acharam que era "piracema" minha.

Por que voltar? Repensou o que disse ou o seu trabalho?

Mais uma vez: eu disse que pularia uma estação para concluir outros projetos e pensar em outras possibilidades, mas que voltaria no verão - aliás, como muitos colegas já fizeram. Ou terminava um livro e iniciava um projeto na Amazônia paraense ou fazia um desfile. Não tinha tempo nem dinheiro para fazer as três coisas. Por isso naquela ocasião optei pelas duas primeiras.

Como apresentar o trabalho de um estilista hoje em dia? Passarela, anúncios: o modelo ficou anacrônico? Daria para se vender de outra maneira?

Mais que nunca, sigo a cartilha do poeta Manoel de Barros. Cadeira, roupa, comida podem ser a escrita de quem cria para a escrita pessoal de quem vai consumi-los. Portanto outras frentes de reflexão, exposição e comercialização são bem-vindas. Acredito na mágica que o desfile provoca e tenho certeza que esta nunca se esgotará. Por outro lado, outras ondas sempre virão. 

Muito se fala que a música e o cinema, do jeito que conhecemos, também estão no fim. Como a moda deveria se reinventar?

Uma das possibilidades é estabelecer cada vez mais o diálogo com outras frentes.

Eventos como o que você participa servem mais para jornalistas e compradores do que para clientela final. Como aproximar mais seu produto do consumidor?

O brasileiro tem fascínio pelo show da moda. Aqui o desfile entra de uma forma avassaladora na casa das pessoas, de todas as classes. O problema é o timing e o alto custo de produção hoje no Brasil. E o formato de desfile de moda, como já disse, é somente mais uma possibilidade de exposição.

A moda no Brasil é muito cara, isso é fato. Há solução para essa conta que nunca fecha?

O setor, que é o segundo maior gerador de empregos, perdendo somente para a indústria alimentícia, é também o que sofre com sobretaxas de impostos da matéria-prima até a comercialização. O problema maior é o tributário. Além de tudo, vivemos uma concorrência desleal com a vinda das marcas de luxo europeias e seus investimentos bilionários em marketing de um lado, e dos produtos têxteis chineses de outro. Assim, a indústria têxtil brasileira corre sério risco de em 20 anos ser apenas uma página da história do setor no país - o que é uma incoerência, neste momento em que nunca se consumiu tanta roupa no Brasil.  

Você sempre se preocupou em contextualizar sua coleção, apresentar a tese por trás das peças ali apresentadas. Você acredita que se vestir é defender uma ideia? Somos aquilo que tentamos mostrar ser?

O melhor que o ofício me traz é me levar por caminhos e lugares para aonde pelas vias normais eu não iria - viagens, lugares, literatura, música, universos diferentes dos meus. E não tenho a menor dúvida do poder de corpos e roupas como instrumentos de escrita pessoal.  

Que talentos você conheceu que não podem se exibir num evento de moda, seja por não serem indicados, não terem infraestrutura de produção ou sequer apoio para viabilizar um evento que pode valer um apartamento?

Muitos que estão trancados em empresas de fast fashion angustiados na eterna busca pela blusinha que vai virar a febre da próxima semana e outros grandes nomes que, por questões econômicas e de gestão, acabaram por deixar o ofício.

Se não fosse estilista, o que seria?

Qualquer coisa em que desenho e escrita se encontrassem.

Por João Luiz Vieira.