Capacidade ociosa cresce e inibe investimento na indústria

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil
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A redução do nível de atividade da indústria de transformação em ritmo quase ininterrupto desde abril do ano passado contribuiu para diminuir os níveis de utilização da capacidade instalada em diversos setores da indústria no período, principalmente aqueles ligados à produção de bens de capital e de itens duráveis. Para economistas, a lenta recuperação da indústria deve demorar a pressionar o uso de capacidade e a consequência provável será um retardamento ainda mais pronunciado da retomada dos investimentos, já bastante deprimidos.

Em março, o nível de utilização da capacidade instalada aferido pela Fundação Getulio Vargas (FGV) ficou relativamente estável em relação ao mesmo mês do ano passado, com queda de 0,5 ponto, para 83,8%. A produção da indústria de transformação, na mesma comparação, caiu 2,3%.

 

Em abril, dado mais recente disponibilizado pela FGV, o uso da capacidade passou para 83,9%, ainda 0,5 ponto abaixo do nível observado no mesmo mês do ano anterior. Dos 14 setores pesquisados, seis chegaram a abril com utilização da capacidade inferior ao observado no mesmo mês do ano passado. Outros três segmentos observaram ociosidade estável no período, enquanto em cinco segmentos houve aumento do uso da capacidade.

Os ramos em queda representam pouco menos de 50% do faturamento bruto da indústria de transformação, de acordo com a última Pesquisa Industrial Anual, de 2009. São segmentos relevantes, como metalúrgico, mecânico, material de transporte (que inclui toda a cadeia automobilística), têxtil, de produção de alimentos e matérias plásticas. Desse conjunto, todos estão no mínimo quatro pontos percentuais distantes do pico observado no período recente, enquanto a produção está entre 10% e 30% menor, na mesma comparação, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou um quadro semelhante. Os dados mais recentes da entidade, de março, desenharam uma cena de recuperação lenta da indústria, com aumento do faturamento e do nível de emprego. A capacidade instalada, no entanto, ficou em 81,5%, pior nível para um mês de março desde 2006, com exceção de 2009, ano marcado por forte retração da indústria. Dos 19 setores industriais pesquisados, em apenas seis a ociosidade diminuiu na comparação entre março de 2012 e o mesmo mês do ano passado.

Para o professor da Unicamp e consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Julio Gomes de Almeida, a queda da utilização da capacidade instalada reflete, em parte, a concorrência com o importado - efeito mais evidente em setores como têxtil e de fabricação de matérias plásticas - e também o encerramento de um ciclo de consumo de bens de capital e duráveis, o que pressiona segmentos como a indústria mecânica e de material de transporte. "A economia brasileira inicia o ano com dois problemas: a perda de espaço para o importado, que já foi uma grande questão em 2011, e a insuficiência da demanda efetiva, o que determina a redução da produção em alguns setores, como o de veículos."

Na indústria automobilística, de acordo com a Anfavea, entidade que reúne as montadoras instaladas no país, houve queda de 3,4% das vendas nos primeiros quatro meses em relação a igual período de 2011, o que colaborou para que o estoque de veículos nas fábricas e nas concessionárias alcançasse 43 dias em abril, maior nível desde novembro de 2008.

Para Marcelo de Ávila, economista da CNI, o alto nível de estoques contribui para que as montadoras adiem a retomada da produção, o que resulta em queda do uso da capacidade. "A situação dos estoques é um agravante. A questão é que quando há um problema maior na indústria automotiva, o impacto se dá em toda cadeia, o que dificulta ainda mais a reação da produção industrial", afirma.

"Quando o uso está relativamente baixo, não há estímulos para aumentar investimentos, e é isso que está ocorrendo", diz Ávila. Para ele, a disposição do empresário para investir dificilmente deve responder às condições de crédito mais barato enquanto a produção continuar patinando. "Se uma indústria tem três máquinas paradas, não adianta comprar uma nova apenas para aproveitar a queda dos juros", afirmou.

Em alguns setores em que há queda da produção e manutenção do nível de utilização da capacidade, argumenta Juan Jensen, economista da Tendências Consultoria, o investimento não tem sido suficiente nem mesmo para repor a depreciação das máquinas. O uso da capacidade instalada é a razão entre a produção e a capacidade de produção. Sem investimentos para repor o desgaste físico dos bens de capital, ele pode cair, apesar da atividade mais fraca. É o caso, por exemplo, de material eletrônico e de comunicações, em que a ociosidade diminuiu em março, de acordo com a pesquisa da CNI, apesar da forte queda de 18,4% da produção no período.

O resultado esperado dessa dinâmica é o recuo do investimento no início deste ano. A Tendências projeta queda de 3,1% na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) no primeiro trimestre, na comparação com os últimos três meses de 2011, feitos os ajustes sazonais. No ano, Jensen projeta crescimento próximo a 5% em relação a 2011, já que há expectativa de que a economia ganhe dinamismo a partir do segundo semestre, mas ressalta que a resposta deve ser mais dos investimentos em construção civil do que em máquinas e equipamentos.

Gomes de Almeida, do Iedi, considera 5% uma projeção "muito otimista", já que a crise externa deve chegar ao Brasil via canal de expectativas e estagnar os investimentos industriais.

Para Aloisio Campelo, coordenador da Sondagem da Indústria da FGV, a utilização da capacidade tende a aumentar no segundo semestre, à medida que a atividade industrial responder aos estímulos já concedidos, como o ciclo de redução da taxa básica de juros e desoneração da folha de pagamentos. Para ele, como não houve acréscimos significativos de capacidade recentemente, qualquer avanço da produção deve elevar também o uso da capacidade.

Gomes de Almeida, do Iedi, concorda. "Se pensarmos na economia daqui a um ou dois trimestres, a demanda deverá estar mais aquecida, em função das medidas do governo", avalia. Ainda assim, diz, há um risco não desprezível de que a recessão na indústria afete o nível de emprego e de renda, que por enquanto têm segurado o consumo de bens não duráveis. "Temos um contexto internacional ruim e um fator que conspira contra, que é o fim de um ciclo de consumo. Mas há aspectos favoráveis, como as medidas de estímulo. É um jogo que ainda está sendo jogado, mas espero um nível de atividade melhor no último trimestre do ano", afirma.