Exportador inseguro com dólar

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil
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Exportadores de bens manufaturados colocaram o câmbio entre R$ 1,80 e R$ 1,90 no radar. A taxa ainda é considerada baixa para estimular a retomada de mercados perdidos no exterior, mas, se for mantida, pode levar à redução de preços de exportação ou permitir uma pequena recomposição de margem.

A principal dúvida dos empresários é quanto à manutenção desse patamar. Apesar das recentes intervenções do Banco Central no mercado de câmbio e das repetidas declarações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, indicando o câmbio a R$ 1,80 como piso, a atitude dos empresários é de cautela. Eles temem nova valorização do real, que afete a rentabilidade recém-recuperada. Nos últimos 12 meses - mesmo sem considerar o patamar recente do câmbio - a rentabilidade da exportação cresceu 7,7%.

Valdemir Dantas, presidente da fabricante de eletrodomésticos Latina, diz que o novo nível do dólar, se efetivamente mantido, deve ser permitir a recomposição de margem da companhia e a redução do preço das vendas ao exterior. Gaston Diaz Perez, diretor-financeiro da Bosch, explica que o efeito prático da desvalorização cambial na companhia foi a "descompressão da margem de lucros". Para elevar a presença no mercado externo ou repassar a vantagem aos preços, seria necessário maior estabilidade na taxa e um dólar perto de R$ 2.

Os fabricantes gaúchos de calçados já pensam que a desvalorização do real pode ter efeito prático. "O câmbio ideal é o câmbio estável", diz o diretor do grupo Priority, Eduardo Smaniotto. Se houver estabilidade em torno do preço de R$ 1,90, porém, parte do ganho poderá ser repassado aos preços da próxima coleção. Micheline Grings Twigger, diretora de comércio exterior da Piccadilly, também acredita que se houver maior segurança em relação ao câmbio, alguma coisa poderá ser repassada aos preços. "Já houve casos em que repassamos vantagens para os clientes, mas em seguida o real se valorizou de novo", lembrou ela.

A mesma preocupação é partilhada pelo diretor de vendas da fabricante de revestimentos cerâmicos Cecrisa, Paulo Benetton. O câmbio entre R$ 1,80 e R$ 1, diz, é um "refresco" e incentiva as exportações, mas não é ainda suficiente para grandes saltos. "Ficamos empolgados, mas não dá para soltar fogos e voltar com tudo, porque ainda há certa insegurança. No passado ele chegou a R$ 2 e logo regrediu", explica ele.

No setor têxtil, muito afetado pela concorrência dos produtos chineses - seja no mercado doméstico, seja em terceiros mercados - o ceticismo é maior e a "nova" taxa é considerada insuficiente para recuperar mercados.