China faz estoque expressivo de algodão

Veículo: Valor Econômico
Seção: Empresas
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Mesmo que os compradores internacionais de algodão ainda evitem comprar o produto desde que os preços chegaram às alturas, uma importante fonte de demanda aproveitou o espaço aberto: a reserva nacional de algodão da China.

Embora a proibição às exportações determinada pela Índia tenha dominado as manchetes dos jornais (ver matéria ao lado), a China tem uma importante trajetória no mercado de algodão nos últimos 12 meses. Seus estoques, administrados pelo governo, acumularam de forma constante milhões de toneladas da fibra, volume correspondente a 15% da demanda mundial estimada para este ano.

Esse grande programa de compras causou problemas à Índia, segunda maior exportadora mundial da fibra, cujas fábricas vêm precisando pagar preços cada vez maiores pelo algodão. O governo federal, pressionado pela indústria têxtil local, decretou a proibição de todas as exportações de algodão, configurando o segundo anúncio deste tipo desde 2010.

  

Há quase um ano, o algodão chegou ao recorde de US$ 2,27 por libra-peso na bolsa de Nova York. A marca foi atingida em meio à demanda aparentemente interminável da indústria têxtil, puxada pela China. Os preços recordes fizeram o mercado voltar atrás e as indústrias têxteis na Ásia cancelaram encomendas em massa. O governo chinês, então, entrou no mercado. A China, além de importar quantidades imensas de algodão, é também o maior produtor mundial.

Em abril de 2011, Pequim anunciou seu plano para comprar algodão para sua reserva estatal quando os preços estivessem abaixo de 19,8 mil yuans por tonelada, equivalente a US$ 1,42 por libra-peso. O plano, que se estenderia até março deste ano, não impôs limites para as aquisições.

As autoridades que administram as reservas compraram à vontade. Com os preços mundiais abaixo do piso chinês desde meados de 2011, as aquisições foram de 11,4 milhões de fardos de algodão de fazendas chinesas e até 5 milhões de fardos de plantadores estrangeiros, segundo estimativas do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). Elas são equivalentes a 15% da demanda mundial estimada para a atual temporada.

Embora tenha impulsionado a renda dos agricultores, inclusive a dos seus próprios, o programa de compras da China alarmou os participantes do mercado e não apenas os indianos. Em previsão feita em fevereiro, o USDA informou que a "concorrência das compras para as reservas chinesas está elevando os preços e prejudicando a capacidade da indústria têxtil global de adquirir algodão para fiação".

A Comissão Internacional de Consultoria de Algodão (Icac, na sigla em inglês), um grupo intergovernamental com sede em Washington, vem acompanhando de perto as compras chinesas.

"A China está impulsionando os preços mundiais ao comprar algodão para sua reserva nacional", afirma Terry Townsend, diretor executivo. "Há sempre consequências na economia e qualquer esforço que mantenha os preços acima de seu nível de equilíbrio afetará a participação do algodão no uso mundial de fibras".

O mercado de algodão é relativamente pequeno. O produto representa apenas 1,2% do índice referencial S&P GSCI de commodities. Em parte por sua volatilidade, no entanto, o algodão é bastante influente. A Glencore, maior trading mundial de commodities, atribuiu a queda em seu lucro com corretagem em grande medida às perdas no mercado de algodão.

A China vem acumulando algodão de forma intermitente desde os anos 1990 e, em certas ocasiões, assumiu o papel de grande vendedora, de acordo com a Icac. Com a incerteza sobre o nível das reservas, isso cria dúvidas para os operadores que tentam avaliar a direção dos preços.

"Apesar de o consumo industrial estar em baixa neste momento e de os estoques geralmente serem maiores que alguns anos atrás, o fato da reserva chinesa ser um comprador tão grande é um fator que muda o jogo", diz Andy Ryan, operador de algodão na FCStone, em Nashville.

Uma questão-chave para os comercializadores, consumidores e operadores é se a proibição às exportações indianas, combinada com as compras da China, encaminhará o mercado para uma onda de alta similar aos períodos de 2010 e 2011.

Por enquanto, há consenso de que isso não deverá ocorrer. Ao contrário de dois anos atrás, os estoques mundiais de algodão estão em alta pelo terceiro ano consecutivo, segundo previsões do Departamento de Agricultura dos EUA. A produção cresceu em todos os países exportadores com exceção dos EUA.

A demanda caiu 4% em 2012, segundo ano consecutivo de declínio, de acordo com o departamento americano. Além disso, o programa de compras da China pode ter contribuído para aumentar o cultivo no país, depois de dois anos de queda.

O maior impacto da proibição às exportações indianas pode ser sua reputação como fornecedores confiáveis e sobre os compradores chineses, que agora precisarão comprar fardos em outros países.

"É uma grande negócio pra China", diz Jordan Lea, presidente da comercializadora de algodão Eastern Trading, que vende à Ásia. "Eram eles que tinham se programado para importar montes de algodão".