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A maioria da indústria não terá incentivos suficientes

Veículo: O Estado de S. Paulo
Seção: Economia
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O governo prepara um segundo Plano Brasil Maior, mesmo com o primeiro ainda pouco difundido na indústria. A equipe econômica parece pouco consciente da amplitude da crise que o setor manufatureiro atravessa e o que se sabe sobre o Plano é que talvez seja excessivamente ambicioso, correndo o risco de não trazer grande resultado para a indústria nacional.

Não há dúvida de que a taxa cambial, supervalorizada, atuou como um mecanismo que aos poucos foi esgarçando o tecido industrial da Nação. Começou por tornar impossíveis as exportações e, numa segunda fase, muito mais destruidora, levou as empresas nacionais a fechar linhas de produção de componentes dos bens acabados, adquiridos no exterior a um preço muito mais baixo e com conteúdo tecnológico melhor. Assim, a indústria brasileira progressivamente está se limitando a uma atividade de montadora apenas.

O governo parece ter-se equivocado na interpretação desse processo, ao acreditar que ele teria suas raízes apenas na existência de uma taxa cambial sobrevalorizada, deixando de lado a influência da carga tributária e do custo de uma burocracia à qual se acrescenta uma política salarial que quase dobra os salários em curto prazo.

Ao que parece, o complemento ao Plano Brasil Maior tem uma única preocupação: reduzir as importações, que hoje contribuem para aumentar o déficit comercial, bem como favorecer o setor do petróleo, que deveria se tornar uma fonte de aumento das receitas de exportações.

O governo, ao que consta, pretende estimular, por meio de cortes tributários, setores de alta tecnologia, como a produção de semicondutores, equipamentos para TV digital, telecomunicação e computadores. Não se pode negar que setores de alta tecnologia devem ser estimulados, todavia, é preciso lembrar que são setores que obrigarão ao pagamento de royalties e não produzirão a partir de pesquisa inovadora. Tornar mais fácil a importação de equipamentos para exploração do petróleo, por exemplo, não estimulará a sua produção. No entanto, os outros ramos industriais, não incluídos na nova política, continuarão a enfrentar os mesmos males, e estaremos testemunhando sua agonia nos próximos anos, apesar de suas vantagens naturais, como no caso dos têxteis.

Cabe ao governo ter a coragem de reduzir a carga tributária, de baixar normas simplificando a vida das empresas, notadamente para abrir uma nova sociedade e facilitar o cálculo dos impostos. A mudança da política salarial precisa do apoio do governo, e o governo do PT deveria torná-la politicamente mais fácil.



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