Desafio da política industrial é driblar crise mantendo estabilidade

Veículo: O Estado de S. Paulo
Seção: Economia
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BRASÍLIA - A crise financeira internacional exige do governo federal um conjunto de medidas para manter a estabilidade econômica e impedir que o excedente de produtos manufaturados dos países desenvolvidos venha "matar" a indústria nacional. São essas duas linhas que vão pautar a atuação estatal nos próximos anos, segundo o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mauro Borges Lemos.

"O governo toma ações e isso influencia a economia", afirmou o economista, um dos formuladores do Plano Brasil Maior, a política industrial do governo Dilma Rousseff. "Vivemos uma crise mundial muito aguda e fizemos duas apostas: garantir a estabilidade e não deixar a crise matar a indústria nacional."

O diagnóstico do parque industrial brasileiro traçado pela ABDI expõe diferenças profundas entre alguns setores.

Há, hoje, um hiato entre a produtividade nacional e as melhores práticas internacionais. As mais eficientes indústrias do mundo fabricam produtos muito superiores àqueles carimbados com "made in Brazil".

O País possui dois extremos, na visão da agência. No setor básico, há indústrias de alto valor agregado no agronegócio, como frigoríficos e suco de laranja. Na outra ponta, estão os setores de petróleo, gás, aeronaves e cosméticos, com empresas líderes de mercado.

A tarefa do governo é auxiliar os setores localizados entre essas duas extremidades. "O meio da indústria está perdendo feio", afirmou Lemos.

O Plano Brasil Maior, lançado no ano passado, tem como objetivo facilitar a sobrevivência desses setores mais expostos, como por exemplo, celulose, mobiliário, farmacêutico, de borracha e produtos químicos e outros. Um forte empurrão estatal para isso serão as compras públicas.

Segundo Lemos, o governo deve finalizar nos próximos dias as margens de preferência nas aquisições governamentais de fármacos, para permitir que hospitais públicos possam pagar um pouco a mais para comprar remédios fabricados no Brasil. Medida semelhante já está em vigor para a indústria de defesa e produtos têxteis, e outros setores serão beneficiados em breve.

Estagnação

Apesar de o governo tomar medidas sempre pleiteadas pelos industriais, como ações para impedir a sobrevalorização da moeda brasileira - o que encarece o produto nacional lá fora - e os cortes na taxa de juros, a produção industrial patinou no ano passado, expandindo apenas 0,3% em relação a 2010.

Mas, na avaliação do governo, o movimento não tem relação com o câmbio ou problemas estruturais do País. Segundo o presidente da ABDI, a principal causa para isso foi o excesso de euforia dos próprios empresários com o forte crescimento econômico de 2010. Eles elevaram os estoques na expectativa de que o desempenho da economia se repetiria no ano passado.

A desaceleração do consumo das famílias no País acabou surpreendendo os empresários, que ainda precisaram enfrentar o encolhimento nas compras dos países da União Europeia e dos Estados Unidos - os dois maiores mercados dos produtos brasileiros - por causa da crise da dívida internacional.

Na avaliação da ABDI, a economia mundial vai demorar a apresentar crescimento. Por isso, algumas medidas em estudo pelo governo trabalham com o cenário pós-2013.