Ações de consumo entram na lista de venda para 2012

Veículo: Valor Econômico
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As ações de três companhias eleitas como as principais representantes do setor de consumo doméstico no Brasil, eleito como porto seguro desde o estouro da crise financeira mundial em 2008, agora acumulam a maior posição vendida deste ano.

Esse dado é um sinal de que a aposta na pujança do consumo no país já não tem tanta credibilidade no mercado. Ambev, Hering e Natura alcançaram, em dezembro, o pico das posições alugadas em aberto, posicionamento de investidores que acreditam na queda dos papéis.

Nos últimos três anos, essas companhias estiveram no alto da lista de preferência pelo cenário doméstico, de investidores locais e internacionais. Não é coincidência que todas elas alcançaram suas máximas históricas em 2011 - em momentos diferentes.

A varejista de moda e fabricante têxtil Hering acumula valorização de 27,3% neste ano, depois de subir nos dois anos anteriores quase 300%. Neste ano, o Índice Bovespa mostra, até ontem, queda de 16,8%.

No caso da Ambev, o ganho no ano supera 35%, depois de valorizações de 80% e 51%, respectivamente, em 2009 e 2010.

Somente a Natura, entre as três, não mostra alta no ano, pois alcançou seu pico histórico logo nos primeiros dias de 2011. Assim, agora acumula perda de 20,7%, após dois anos de ganhos relevantes (100% e 37%, respectivamente).

As posições vendidas em aberto nessas empresas aumentaram substancialmente ao longo deste ano e neste mês atingiram seu maior volume. Essas posições indicam que é crescente o número de investidores que acreditam que a tendência de curto prazo para os papéis é de baixa.

Apesar de dezembro ser, em tese, uma das melhores épocas para o setor de consumo, o prognóstico na bolsa não parece ser dos melhores.

A estratégia desses investidores consiste em alugar os papéis para vendê-los agora, acreditando que os preços estarão mais baixos quando tiverem de recomprar no mercado para devolver para aqueles de quem alugaram. A lógica é inversa, portanto: o investidor primeiro vende, sem ter o papel de fato, e depois é que compra a posição para entregar.

No caso da companhia de varejo têxtil Hering, a evolução é sensível. As posições vendidas eram inferiores a R$ 100 milhões até abril. Em outubro, subiram para mais de R$ 200 milhões e no dia 15 de dezembro estavam em R$ 360 milhões.

Vale lembrar que as ações da empresa passaram a compor o Índice Bovespa a partir da carteira teórica de setembro, o que tende a ampliar a liquidez dos papéis - para altas e para baixas.


  

Na Ambev, a posição vendida - que ao longo do ano oscilou entre R$ 500 milhões e R$ 700 milhões - está acima de R$ 1 bilhão desde setembro e neste mês chegou a R$ 1,2 bilhão.

Por fim, no caso da empresa de cosméticos, a posição vendida está perto dos R$ 600 milhões - quase o dobro do que o verificado ao longo de 2011.

Carlos Eduardo Sequeira, estrategista do BTG Pactual, destacou que as expectativas para o segmento de consumo realmente indicam cautela com este fim de ano. "A desaceleração econômica foi muito mais forte do que se esperava", disse ele.

Por conta disso, ele acredita que as vendas do fim do ano serão menos forte do que os investidores estavam esperando.

Apesar de acreditar que o governo tem mecanismos - e deve usá-los - para estimular a economia, Sequeira defende que o investidor se afaste um pouco do setor de consumo, a fim de aguardar uma melhor visibilidade da atividade doméstica antes de voltar a investir.

Ele lembrou que as ações da Hering deixaram de compor a carteira recomendada há dois meses. A varejista de moda era a escolhida para representar o segmento de consumo ao lado de Lojas Americanas.

Para Carlos Nunes, estrategista de renda variável do HSBC, faz sentido esse viés mais negativo para o setor de consumo nos últimos meses.

"Há indicadores mostrando desaceleração do consumo. Dados do trabalho divulgados pelo IBGE mostram uma deterioração maior, o que acende o sinal quanto à renda. Tanto as varejistas que têm financeiras quanto os bancos divulgaram resultados que mostram o aumento de provisões e da inadimplência", afirmou o executivo.

Nunes acredita que a classe C emergente, que vinha puxando as apostos no consumo no ano passado, sofre mais com os efeitos da inflação.

"Por conta das diferentes cestas de produtos, o impacto para ela é mais alto. Elas podem deixar de comprar o que antes compravam, uma vez que a redução de seu poder de compra é maior."

Na visão dos analistas do HSBC, Alexandre Gartner e Francisco Vanzolini, as evidências apontam para a desaceleração no consumo.

"A maior surpresa negativa dos balanços do segundo trimestre foi a inflação nos custos. Já os resultados do terceiro trimestre foram marcados pela evidência de um ritmo brando de consumo - enfraquecimento das vendas mesmas lojas, desaceleração nas taxas de crescimento e aumento na inadimplência", afirmam ele.

Assim, Gartner e Vanzolini destacaram que as empresas de varejo e consumo foram as mais afetadas. A ponta positiva ficou com as empresas ligadas a commodities.

Quando comentou os resultados do terceiro trimestre, divulgados no fim de outubro, o presidente da varejista de moda, Fabio Hering, não descartou a existência de oscilações no comportamento da economia interna. Contudo, enfatizou que a tendência geral é de continuidade do crescimento.

Segundo o executivo, algumas mudanças nos hábitos dos brasileiros, com avanço da renda e do emprego, são definitivas. Hering citou o aumento do uso de cartão no lugar do dinheiro nos pagamentos, indicando um aumento da bancarização, e também a alta nos gastos com entretenimento e lazer e viagens. "Como passeia mais, o brasileiro investe mais em roupas."

A Lojas Renner, embora não tenha atingido sua máxima histórica neste ano, continua entre as principais representantes do setor de consumo no Brasil.

As posições vendidas nas ações da companhia estão elevadas também. Desde junho, as posições em aberto superam R$ 400 milhões, enquanto na primeira metade do ano oscilaram entre R$ 220 milhões e R$ 345 milhões.

A empresa acumula uma perda de 8,5% no ano, depois de subir 47,8% em 2010 e 154,3% em 2009.