Dilma reclama do câmbio chinês e não dará dinheiro a fundo europeu

Veículo: O Globo
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CANNES (França). A presidente Dilma Rousseff queixou-se ontem que passa “o tempo todo” reclamando do câmbio desvalorizado da China, mas que não tem como obter garantias dos chineses nem “de ninguém” que esta situação vá mudar. O yuan desvalorizado criou uma vantagem competitiva extra para os produtos chineses, que estão chegando de forma crescente ao mercado brasileiro, sob protestos da indústria nacional. O país asiático já é o maior parceiro comercial do Brasil.

— Passamos o tempo inteiro dizendo isso, que não pode ser assim, que tem que mudar. Não somos só nós a falar isso — disse a presidente.

Dilma, que se encontrou com o presidente chinês Hu Jintao em um reunião privada, paralela à cúpula do G-20 (maiores economias do mundo), disse que é por causa do câmbio chinês que o Brasil tem insistido na Organização Mundial do Comércio (OMC) que as discussões sobre livre comércio “passam pela questão do câmbio”.

— Temos que nos proteger. Não é protecionismo, mas cada um faz o que pode — disse Dilma ontem. No encontro com Hu Jintao, ela teria pedido que a relação comercial seja baseada na agregação de valor também para os produtos comprados do Brasil.

Ajuda pelo FMI é mais garantida, diz presidente

A presidente Dilma descartou ontem qualquer possibilidade de o Brasil participar do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) — criado para ajudar os países europeus em crise. Ela reafirmou que o país só vai ajudar por meio do Fundo Monetário Internacional (FMI). E explicou o motivo, sem rodeios:

— Eu não tenho nenhuma intenção de fazer uma contribuição direta para o Fundo de Estabilização Europeu. Por que? Nem eles (os europeus) têm… por que eu teria? — indagou.

Dilma disse que a opção do Brasil pela ajuda via FMI é simples: o Fundo Monetário, ao contrário do fundo europeu (que é privado), dá garantia total. E como a ajuda é feita com reservas brasileiras — ou seja, dinheiro do contribuinte — não se pode arriscar.

A respeito da taxação sobre operações financeiras — uma das bandeiras do governo francês na presidência do G-20 — Dilma explicou porque o Brasil retirou sua oposição à proposta:

— Nós temos uma taxa, o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Nós não somos contra a taxação global. Se todos os países adotarem uma taxa, o Brasil não é contra. Se tiver uma taxa global, o Brasil adota também. Tem países que são contra, porque fazem das finanças seu melhor negócio.

A taxa global sobre operações financeiras, entretanto, está longe de ser aprovada pelo G-20. A proposta, contudo, tem ganhado mais adesões, como o Brasil.

Dilma pede adiamento de 16 dias para início da Rio+20

O governo brasileiro pediu ontem o adiamento da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, dos dias 4 a 6 de junho para 20 a 22 do mesmo mês, no ano que vem. A presidente Dilma Rousseff afirmou que a mudança tem por objetivo garantir a presença de chefes de Estado e de governo no Rio de Janeiro.

— Nos dias em que estávamos prevendo a Rio+20, haverá a comemoração dos 60 anos da coroação da rainha Elizabeth II. Qual é o problema que isso acarreta? Os países da área do Commonwealth não iriam à Rio+20 — disse a presidente. — Além disso, os países da Ásia pediram para que a gente fizesse aproximar (a Rio+20) do próximo G-20, que será no México, nos dias 18 e 19 de junho.

Com o adiamento da Rio+20, Dilma espera que as lideranças dos países do G-20 possam sair do México e vir para o Brasil participar da conferência.

— A proposta foi um consenso entre o Brasil e a ONU, entre mim e o (secretário geral da ONU) Ban Ki-moon — disse Dilma.