Crise externa leva o Banco Central a baixar juros para 11,5%

Veículo: Correio Braziliense Online
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O cenário adverso da crise internacional, que se arrasta há meses, foi o motivo para o Banco Central, mais uma vez, baixar a taxa de juros básica da economia, apesar da alta da inflação doméstica, que bateu em 7,31% em setembro, conforme o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses. Pela segunda vez consecutiva, agora por unanimidade, os membros do Comitê de Política Monetária (Copom) cortaram em 0,50 ponto percentual a taxa Selic, que caiu para 11,50% ao ano.


Em nota, o Copom justificou a medida como uma forma de, “tempestivamente, mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo”. O comitê entende que “um ajuste moderado no nível da taxa básica é consistente com o cenário de convergência da inflação para a meta (de 4,5%) em 2012”. Faltando apenas mais uma reunião para fechar o ano, o mercado coloca suas fichas em mais uma redução da taxa, na mesma proporção.

Ao contrário do que ocorreu em agosto, quando a redução da Selic surpreendeu o mercado financeiro, desta vez as apostas majoritárias estavam em linha com a decisão tomada pelo colegiado. A maioria dos analistas previa uma queda de 0,50 ponto. Dessa maioria, destoavam os economistas do Itaú, que acreditavam em queda de 0,75 ponto percentual, e do RBS, que esperavam uma freada mais brusca, com a taxa recuando um ponto de porcentagem.

Os economistas são unânimes em apontar o agravamento da crise externa como a razão da queda. “Só a desaceleração doméstica não ajuda a trazer a inflação para o centro da meta”, disse o economista-chefe do Sul América Investimento, Newton Rosa. Para ele, ao reduzir os juros depois de mantê-los em alta até agosto, o BC está se antecipando à piora do quadro internacional.

O especialista em macroeconomia do Instituto Millenium Júlio Hegedus Netto avaliou que o Banco Central foi cauteloso em não avançar para uma queda maior, o que poderia se justificar pelos números ruins da economia chinesa. “A China apresentou no terceiro trimestre números mais fracos do que os previstos, o que pode gerar deflação das commodities”, observou.

A redução dos juros, que contribui para diminuir o custo do crédito e incentiva o crescimento econômico, faz parte da ação do governo para reagir à crise. Na visão do BC, os graves problemas fiscais enfrentados pelos países europeus, o crescimento chinês mais brando, a virtual falência da Grécia e a recessão que paira sobre os Estados Unidos dificilmente serão resolvidos a curto prazo. Assim, a crise será longa, menos aguda que a de 2008, mas com grande repercussão sobre o crescimento mundial.

No plano interno, o BC enxerga queda dos preços das commodities e da inflação. Apesar da alta nos últimos 12 meses, a expectativa do Banco Central é que neste mês os preços comecem a ceder. Mesmo assim, o ano fechará com a inflação bem acima do centro da meta de 4,5% e o BC ainda corre o risco de ter que explicar em carta pública por que não conseguiu mantê-la pelo menos dentro da margem de tolerância, que vai até 6,5%.

O professor da Escola de Economia da Fundação Getulio Vargas em São Paulo Rogério Mori avaliou que, para evitar ruídos, o BC sinalizou, antecipadamente, a decisão que tomaria ontem. E a tendência é que a redução continue nos próximos meses. “O Banco Central trabalha com um cenário de queda da inflação e é bem provável que a Selic siga caindo. Apenas uma nova aceleração dos preços poderá reverter esse quadro”, disse.

Diante da perspectiva de novas quedas, Mori dá dicas para quem possui recursos extras para aplicar. “A renda fixa continua sendo uma boa opção em um mar de incertezas. Para o aplicador mais sofisticado, o Tesouro Direto apresenta alguns papéis que podem proporcionar uma rentabilidade mais atraente”, aconselhou. Já para quem pensa em adquirir bens, a recomendação é a cautela. “A economia exibe sinais de desaceleração. Com isso, a renda e o emprego devem crescer menos e o consumidor deve evitar se comprometer com dívidas desnecessárias.”

Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a decisão do BC foi acertada, pois a turbulência internacional já começa a provocar desaceleração da economia brasileira, não se justificando uma política monetária restritiva. A entidade adverte, contudo, que não se pode abandonar o compromisso com a meta de inflação em 2012 e, por isso, o governo precisa controlar com mais força os gastos públicos.

A Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL) reforçou o pedido de uma política fiscal mais austera. “Temos visto que economias mais desenvolvidas, que por anos tiveram excesso de liquidez, não fizeram o dever de casa e sofrem com deficits altíssimos, o que hoje é o grande problema do repique da crise”, disse Roque Pellizzaro Junior, que preside a entidade.

Já o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, disse esperar que o BC acentue o movimento de redução de juros nas próximas reuniões. “Meio ponto percentual corresponde a uma economia de R$ 8,5 bilhões aos cofres públicos, valor suficiente para construir 10 mil escolas ou 150 mil casas populares. Por isso os juros precisam continuar caindo”, afirmou.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) considerou muito lento o ritmo da queda da Selic. “É preciso ousar e acelerar o corte porque o Brasil ainda mantém o título de campeão mundial dos juros, o que freia o emprego, a produção e o desenvolvimento e somente incentiva a entrada de capital especulativo”, afirmou o presidente da entidade, Carlos Cordeiro.