Um centro de consumo

Veículo: Brasil Econômico
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Que a economia brasileira apresenta traços que a tornam menos aberta e dependente de exportações, sabemos de longa data. Mas, isso não justifica a baixa projeção para o exterior das empresas brasileiras e da própria economia com um todo.

Atuar fora traz bons padrões empresariais e contribui para perpetuar o avanço da produtividade e inovação como normas do progresso e competitividade das empresas.

E para quem tem mercado de financiamento de longo prazo tão atrofiado como é o caso do Brasil, ajuda também a alargar a base de obtenção de fundos para investimento e a diminuir o risco da dívida em moeda estrangeira.

Inserção externa é obtida por meio do comércio exterior ou pela internacionalização de empresas, normalmente a primeira precedendo e dando suporte à segunda.

Houve um momento de grande expectativa e movimento pró-exportação. Foi entre os anos de 2003 e 2006, como decorrência das desvalorizações significativas da nossa moeda em 1999 e em 2002.

As mudanças cambiais levaram a uma percepção generalizada entre os empresários de que o nível da taxa de câmbio mudaria de forma duradoura, autorizando redobradas decisões de produzir e investir visando à exportação.

Uma prolongada valorização do real, que nem mesmo a grande crise de 2008 foi capaz de reverter, sepultou esse raro momento "asiático" da economia brasileira. A valorização permitida pela política econômica levou a uma "desilusão cambial" que está na base de um retrocesso sem precedentes na fatia exportada da produção das empresas brasileiras e que explica o colapso dos investimentos industriais para exportação.

O encolhimento dos mercados e a concorrência desenfreada entre os mais importantes países exportadores de manufaturados nos três últimos anos acabaram por derrubar de vez a capacidade exportadora brasileira, excetuando-se a de commodities.

Pode ser muito difícil o retorno à situação anterior, ainda que se tenha presente que a política econômica parece ter se dado conta que no campo cambial deve seguir os inúmeros exemplos de países que retardaram ao máximo uma tendência pró-valorização de sua moeda à espera da consolidação de seus processos de industrialização.

Mesmo que o futuro confirme as melhores expectativas de preços de commodities e o pré-sal brasileiro deslanche como se espera, é possível que a perda dos benefícios da projeção externa para nossas empresas e para a economia brasileira seja permanente.

Na internacionalização, as empresas nacionais não interromperam os relativamente tímidos movimentos iniciados anteriormente, mas há uma nítida perda de qualidade se são levados em conta os fatores determinantes da ida para o exterior. Grandes empresas brasileiras instalaram unidades fora do país porque acumularam competências, desenvolveram tecnologias e procuraram conquistar novos mercados.

Mas, nos últimos anos, vem despontando a internacionalização como fuga ao alto custo de produzir no Brasil. Aqui, o processo visa substituir a exportação brasileira mais cara ou produzir no exterior para abastecer o próprio mercado brasileiro. Será esta uma tendência permanente? Se for, restará ao Brasil a condição de centro de consumo, mas não de produção. O crescimento será menor.