Sob pressão do Planalto, Copom começa a decidir taxa de juros hoje

Veículo: O Globo
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BRASÍLIA e RIO. O Comitê de Política Monetária (Copom) decide hoje o novo patamar dos juros mais uma vez sob a pressão do Palácio do Planalto, que considera haver espaço para um corte superior ao de 0,5 ponto percentual ocorrido em agosto, para surpresa do mercado. Antes de viajar para a África, a presidente Dilma Rousseff esteve reunida com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini. Segundo relatos, ela pediu que se levasse em consideração o agravamento da crise global e a desaceleração da economia brasileira.

A opinião tem sido propagada por auxiliares diretos da presidente, que concordam que o grave cenário internacional permitiria uma redução maior, sem perder o controle sobre a inflação. O Planalto espera que esse quadro abra espaço para a taxa cair abaixo de 9% em 2012.

Em outubro, o Índice Geral de Preços – 10 (IGP-10) variou 0,64%, praticamente igual a setembro (0,63%). Em 12 meses, a prévia da inflação medida pela Fundação Getulio Vargas (FGV) avançou 7,25%. No ano, acumula alta de 4,68%. A alta nos preços do atacado passaram de 0,73% a 0,81%. Já no varejo a alta desacelerou de 0,58% para 0,37%.

Na média, o mercado espera um corte de 0,5 ponto hoje, mas, como mostrou ontem O GLOBO, há quem fale em queda de 0,75 ou 1 ponto. A Selic está em 12% desde o fim de agosto.

Para evitar especulações sobre interferência política no Copom, o discurso de auxiliares próximos a Dilma continua sendo de total autonomia do BC. Ontem, por exemplo, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, sinalizou que não sabia a tendência do Copom.

Mas há consenso no Planalto de que, independentemente da magnitude, o que importa é que haja corte, ou seja, que o Copom mantenha “a linha certa”.


BC diz em nota que não é possível haver vazamento

Desde agosto, o cenário internacional piorou. Além disso, a atividade econômica brasileira patinou. O corte de juros, assim, “foi fundamentado em dados concretos”, disse uma fonte.

Em conversas antes de viajar, Dilma mostrou preocupação com a deterioração do cenário, inclusive no Brasil. Dados que apontam a queda do PIB brasileiro em agosto, observou esse interlocutor, já justificariam mais ousadia do Copom agora.

Enquanto isso, em meio à notícia de que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) investiga operações atípicas no mercado de contratos futuros de juros fechadas na semana da última reunião do Copom, o BC afirmou ontem em nota que é impossível saber a decisão antes do anúncio feito à imprensa.

“A decisão (sobre a Selic) é imediatamente informada a toda a sociedade, por meio de nota publicada no site do Banco Central e no Sistema de Informações do Banco Central (Sisbacen)”, diz a nota.

Pelo menos dois bancos mudaram suas apostas no mercado de juros às vésperas do encontro. Na semana anterior, o número de contratos de juros negociados na BM&F; saltou de 1,5 milhão para 2 milhões, atingindo 3,4 milhões na véspera da reunião. Em julho, fora de 1 milhão.

A reunião do comitê é feita em dois dias. No primeiro, apresentam-se dados econômicos. No outro, os diretores ficam confinados na sala do Copom, no 8º andar do prédio do BC em Brasília, fazendo-se uma varredura para checar se não há celulares ou gravadores no local.