Brasil precisa desonerar custo para enfrentar a Argentina

Veículo: DCI
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O Brasil precisa desonerar custo interno para não perder empresas para a Argentina. A advertência foi feita pela senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS) em entrevista exclusiva ao DCI, ao reclamar contra as ações feitas pelo país vizinho para atrair os exportadores brasileiros. Ela é defensora de retaliações contra os argentinos e contra os asiáticos que tentam se instalar no Paraguai e Uruguai para entrar no mercado brasileiro com os benefícios fiscais do Mercosul. Ana Amélia defende que o governo tem de adotar uma postura firme: "Amigos, amigos, negócios à parte".



DCI: O que os hermanos estão fazendo em termos de barreiras comerciais que estão provocando a sua indignação?

Ana Amélia Lemos: Como o superávit da balança bilateral é muito benéfico para o Brasil em cerca de US$ 7 bilhões, a Argentina está criando barreiras comerciais. Dessa forma, tenta forçar o exportador brasileiro a transferir suas unidades para Argentina. Onde o ambiente para o empreendedor é melhor. Do ponto de vista cambial, tributário, logística. O grande interesse de qualquer investidor do mundo não é pelo carnaval, nem pela beleza das mulheres brasileiras. É pelo mercado brasileiro, A própria presidente disse em Porto Alegre que o mercado brasileiro é o grande patrimônio que o povo brasileiro tem para superar essa crise internacional, que vai chegar ao Brasil até mais forte por dois motivos: por causa da retração da China e dos mercados que compram os nossos produtos; e porque aumenta especialmente na Europa o protecionismo comercial. Temos que buscar soluções aqui mesmo.



DCI: Há casos concretos de atração de empresários brasileiros?

AAL: A Argentina já está conversando com nossas empresas de máquinas agrícolas do Rio Grande e quer levá-las para o seu território. E o embaixador da Argentina declarou o seguinte: "Se você quer vender para a Argentina, vá para lá para produzir e vender". A presidente Dilma se deu conta da gravidade do problema quando um carregamento de chocolate, na Páscoa deste ano, derreteu na fronteira, e ela adotou medidas, não diria de retaliação, mas de reciprocidade em relação ao que a Argentina vinha fazendo em termos de licenças não automáticas. Além disso, o comércio bilateral é contaminado pelo interesse da presidente Cristina Kirchner de fazer o enfrentamento ao Brasil, nesse momento em que está disputando uma eleição.



DCI: Esse impasse pode levar ao fim do Mercosul?

AAL: Não, o Mercosul está sendo conveniente. Um especialista em Mercosul levantou a seguinte questão: como o Brasil está vencendo na Organização Mundial do Comércio [OMC] algumas demandas na área do contencioso comercial, como foi o caso dos calçados com os chineses, em que foi aplicada uma sobretaxa de US$ 13,85 por par de tênis importado desse país. A China começou a fazer a chamada triangulação: ela manda o calçado ao Uruguai ou ao Paraguai e ele entra no Brasil como se do Mercosul fosse. Aí é liberada da tarifa externa comum. A China está criando joint ventures nesses países, como foi o caso dos caminhões e dos carros da Coreia, como se o índice de comercialização fosse de 65%. Nós não estamos preparados do ponto de vista da fiscalização. Qual é o fiscal aduaneiro brasileiro que vai saber se um carro tem um índice de 65% de nacionalização? Precisamos criar mecanismos da área negociadora do Itamaraty para resolver esses problemas. Claro que o Mercosul está em frangalhos, mas ainda acho que é possível salvá-lo da morte anunciada.


DCI: Mas a senhora não acha que as retaliações geram também retaliações a produtos brasileiros, como o Japão, que moveu ação contra o Brasil na OMC por causa do aumento do IPI de carros importados?

AAL: O Brasil precisa é desonerar o nosso custo interno. O Brasil tem custos insuportáveis. Você acha que é possível que um carro Gol, da Volkswagen, custe na Argentina R$ 18 mil e custe R$ 28 mil no Brasil? Um carro da GM básico custa nos Estados Unidos R$ 10 mil a menos do que no Brasil? É o custo Brasil: tributos, custo financeiro, a nossa falta de logística, a nossa burocracia. Tudo é complicado para o empreendedor. O nosso ambiente é dos piores possíveis.



DCI: Em vez de lutar contra essa sedução dos argentinos às empresas brasileiras, não seria mais interessante o Brasil criar condições mais favoráveis aos empreendedores?

AAL: O Brasil tem de fazer o dever de casa. O governador do meu estado, o Tarso Genro, foi à Coreia buscar investimentos, buscar empresas. Ele faria melhor se deixasse que as indústrias daqui ficassem aqui. Só que uma empresa do Rio Grande, para conseguir uma licença para o fundo financiamento, demora dois anos, então não há condição nem ambiente para o empreendedor.