Dois caminhos

Veículo: O Globo
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O grande desafio que está colocado para 2012 é manter o país crescendo em ritmo razoável com a inflação controlada e convergindo para o centro da meta de 4,5%. E a indústria tem um papel muito importante nesse objetivo, em especial aqueles segmentos que reagem com mais rapidez aos estímulos da economia. Entender o que está acontecendo com a indústria no presente pode ajudar na construção do futuro.

O retrato da produção industrial tirado em setembro de 2008, no dia anterior ao começo da crise global, é quase uma cópia da fotografia de hoje. Se compararmos os dois períodos, a indústria praticamente não saiu do lugar. Ou seja, caiu muito na crise e recuperou-se no período pós-crise, mas não no ritmo do mercado. E em 2011 está patinando, com crescimento de apenas 1,4% até agosto, contra 10,5% no mesmo período de 2010.

As razões para esse desempenho ruim são conhecidas, na maioria, estruturais. A carga tributária elevada; os custos financeiros, da energia, da logística; e o câmbio valorizado, que estimula a concorrência de fora, às vezes predadora, e dificulta as exportações. Tudo isso é preocupante, afirma o economista Júlio Gomes de Almeida, do Iedi, mas ele destaca outros problemas que considera ainda mais sérios.

Um deles é o desempenho de segmentos da indústria relevantes para a economia, como é o caso do setor de alimentos, em especial pela capacidade de geração de empregos. De janeiro a agosto, esse segmento encolheu 1,3% em relação ao mesmo período do ano passado. Também o setor de bens de capital merece uma reflexão, na visão de Almeida, pela desaceleração acentuada. Em 2010, cresceu quase 21% e este ano só 5,9%. O outro problema é a produtividade da indústria que em 2011 também não saiu do lugar.

— Olhando para a frente o quadro é de crescimento muito baixo, não é nada brilhante — observa, destacando que o único fator que pode melhorar esse cenário é o câmbio.

Assim, se nada for feito, a indústria vai crescer muito pouco em 2012, ajudando o governo no combate à inflação. Mas tem um outro caminho sugerido pelo economista, muito mais virtuoso e que pode levar ao mesmo objetivo com crescimento.

O governo teria que direcionar novos incentivos ao setor industrial, voltados para o aumento da produtividade, o que faltou no plano Brasil Maior, muito mais focado na inovação. Premiar a gestão e o treinamento de mão de obra, junto com a modernização do parque industrial. Um grande programa de produtividade industrial poderia ajudar a indústria e o país a crescerem em 2012, sem risco de pressionar a inflação.



Tijolo estrangeiro

A importação de materiais de construção está forte e tem dado sustentação ao programa Minha Casa, Minha Vida, menina dos olhos do governo, mas a notícia não agradou nem um pouco a presidente Dilma Rousseff. Ao tomar conhecimento do fato, Dilma ficou bastante irritada.

— Estamos usando dinheiro brasileiro. É para comprar produtos aqui dentro, criar empregos aqui dentro — reclamou a presidente, segundo interlocutores.

O programa utiliza materiais importados alternativos que substituem o sistema tradicional da alvenaria. Segundo o Ministério das Cidades, já foram contratadas 43 mil unidades desses moldes de concreto, aço leve e madeira. E há uma fila de pedidos das construtoras aguardando autorização da pasta para importar mais material.

Porcelanatos e louças chinesas também estariam na lista dos importados mais frequentes, o que já provocou uma reação do governo. A Camex aumentou recentemente, de 12% para 35%, o imposto de importação para porcelanatos.

Já o Ministério das Cidades não vê qualquer problema na importação desses materiais. Maria Salette Weber, coordenadora da área de qualidade de construção da pasta, diz que os sistemas são inovadores. E a necessidade de importá-los se deve ao despreparo do setor doméstico e ao desinteresse em investir em novas tecnologias que resultam em soluções mais econômicas e eficientes.

CUSTO DO ROMBO: O governo belga emitirá títulos de 4 bilhões para injetar dinheiro no banco Dexia. Isso significa aumentar em 1% o déficit público do país, projetado inicialmente para 3,5% este ano, segundo o FMI.

APOSTA DE QUEDA: A RC consultores estima que o índice CRB, que mede o preço das commodities, vai cair em reais 4,9% no mês de outubro.

NO MESMO RITMO: O banco HSBC mantém a estimativa de queda nos juros em meio ponto percentual na reunião do Copom da semana que vem.