É hora de arejar o Copom

Veículo: Brasil Econômico
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Pela primeira vez em muitos anos, os responsáveis pela definição da Selic deram demonstração de que não olharam o cenário do país simplesmente pela ótica da inflação.

A manutenção dos índices de crescimento da economia finalmente parece ter entrado na pauta das reuniões do Copom. Muito bem, muito bom. Superada essa etapa, chegou a hora de um outro salto na qualidade das decisões desse colegiado.

Por que não ampliar o Copom e convidar representantes de diversos setores da economia para participar de uma decisão que afeta a minha, a sua, a nossa vida? Não se trata de mero "democracismo".

Trata-se, na verdade, de dotar o Copom de uma abordagem mais ampla, de alertar que suas decisões não podem (e não devem) se resumir ao combate à inflação, embora essa questão precise estar sempre presente na mente e nas ações dos integrantes do órgão.

As opiniões de representantes ligados à indústria, ao comércio e ao setor de serviços contribuiriam para esclarecer os efeitos das decisões do Copom em todos os campos da economia, como o emprego.

A ideia nada tem de revolucionária ou inconsequente, como podem alegar aqueles que sempre confundem arrojo das autoridades com irresponsabilidade ou riscos ao bom andamento da economia - mesmo quando a economia já não anda bem, como ocorre no mundo neste momento.

O insuspeito Timothy Franz Geithner, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, o mais capitalista dos países, apelou na semana passada para que os bancos centrais ao redor do mundo olhassem mais os níveis de desemprego e as taxas de crescimento do que os índices de inflação na hora de tomar decisões sobre a política monetária.

Durante anos, depois do Plano Real, o Brasil viveu totalmente subordinado a uma política econômica cujo objetivo primordial era manter a inflação em patamares baixíssimos.

Essa obsessão levou o país a crises profundas, à estagnação, à perda de competitividade diante de outras nações. As contas públicas estavam em frangalhos e os índices de desemprego se mantinham na casa dos dois dígitos.

O tratamento de choque, apesar de seus efeitos colaterais, não impediu que em alguns anos o IPCA chegasse próximo dos 13%, superando, em muito, o teto estabelecido para a inflação. Isso num período em que a taxa de juros superava os 20% anuais. Ou seja, necessariamente a inflação não sucumbe a doses maciças de taxas de juro.

Mas o emprego, o PIB, a capacidade produtiva, esses não escapam. Por isso, a presença de gente que mexe com máquinas e fábricas ou vive encostado em balcões atendendo clientes pode arejar as reuniões do Copom e melhorar ainda mais a qualidade de suas decisões.

Joaquim Castanheira é diretor de redação do Brasil Econômico