E o dólar avança mais

Veículo: O Globo
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Em mais um dia de nervosismo em todo o mundo, com quedas nos mercados globais, o dólar comercial fechou ontem em alta pela oitava vez consecutiva, subindo 1,78%, a R$1,708. Desde 20 de dezembro de 2010 a moeda americana não ficava acima de R$1,70. No mês, a alta acumulada já chega a 7,22%, o que, segundo especialistas, confirma que mudou a tendência para o câmbio, elevando os temores de mais pressão sobre a inflação no país. Ontem, rumores sobre um possível calote da dívida pública da Grécia voltaram a jogar os mercados para baixo na maior parte do dia.

— Mesmo com os juros altos no Brasil, a aversão ao risco fala mais alto e os investidores tiram recursos dos mercados considerados mais arriscados, como os emergentes — afirma o gerente de câmbio da Fair Corretora, José Roberto Carreira.

Durante o dia, o dólar chegou a subir 3,04%, a R$1,729, mas o movimento arrefeceu no fim do pregão. Desde o início do ano, o dólar vinha em tendência de baixa. Em 26 de julho, atingiu R$1,537, a menor cotação do ano. Agora, com a alta de ontem — a maior variação diária positiva no ano e a maior desde 5 de maio de 2010 — a moeda americana já acumula alta de 2,52% no ano.

— Antes, ninguém tinha pressa em desfazer apostas de queda do dólar. Agora, muitos investidores estão cogitando o pior na Europa — avalia o diretor de câmbio da Renova Corretora, Carlos Alberto Abdalla.

A tendência de alta no dólar, porém, vem desde agosto. Em 27 de julho, preocupado com os recordes de mínima das cotações, o governo anunciou medidas para taxar as operações no mercado futuro de dólar. A cobrança do IOF, o Imposto sobre Operações Financeiras, nessas operações começa em 5 de outubro.

Com isso e com o agravamento do cenário externo, investidores estrangeiros vêm reduzindo suas apostas na queda do dólar no mercado futuro (no jargão do mercado, estão diminuindo sua posição vendida). Somente da quinta-feira passada para a sexta-feira, a posição dos estrangeiros caiu de US$16,798 bilhões (incluindo contratos de dólar futuro e cupom cambial) para US$15,590 bilhões. No início de agosto, os estrangeiros estavam com posições vendidas de US$19,5 bilhões.

Ações de bancos da França caem até 12%

Além disso, o inesperado corte de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros (Selic), para 12% ao ano, por parte do Banco Central (BC) em 31 de agosto, contribui para atrair menos capital estrangeiro.

— A 20 dias de a cobrança do IOF começar, está ainda menos vantajoso ficar com posição vendida nos contratos futuros — diz o gerente de mesa de câmbio da corretora Icap Brasil, Ítalo Abucater dos Santos.

Para Santos, após romper a barreira de R$1,70, o dólar pode chegar a R$1,80. Segundo especialistas, o movimento seguiu o cenário externo porque o dólar se valorizou frente a maioria das moedas. Em dias de aversão a risco, investidores buscam ativos mais seguros, como a moeda americana.

Com o rumores de calote na Grécia, as bolsas europeias fecharam em forte queda. Em Londres, o recuo foi de 1,63%. Paris desabou 4,03%, Frankfurt, 2,27% e Milão, 3,89%.

Apesar disso, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) não despencou porque as perdas reduziram a força no fim do pregão, seguindo uma virada no mercado americano. O Ibovespa, índice de referência do mercado nacional, recuou 0,17%, aos 55.685 pontos, após chegar a cair 2,63% durante o dia. O pessimismo no cenário internacional perdurou até o fim da tarde, pelo horário de Brasília. A virada nos EUA deveu-se a rumores de que a China poderá atuar comprando títulos da dívida da Itália. Em Wall Street, o Dow Jones subiu 0,63%, o S&P; 500 avançou 0,70% e o Nasdaq teve alta de 1,10%.

A notícia sobre a possibilidade de a China investir em títulos italianos foi divulgada após o fechamento dos mercados europeus, pelo jornal britânico “Financial Times”. Segundo o jornal, o ministro das Finanças da Itália, Giulio Tremonti, manteve encontros com o fundo soberano China Investment Corp e com a Administração Estatal de Câmbio Externo da China, órgão responsável pela gestão dos US$3,2 trilhões em reservas internacionais mantidos pelo país asiático.

Segundo o gestor de renda variável da Máxima Asset Management, Felipe Casotti, a melhora não pode ser encarada como algo sustentável. Um eventual calote na Grécia pode representar risco para o sistema bancário europeu, o que pode resultar em falta de liquidez em todos os países.

— Os mercados estão muito voláteis, com a incerteza imperando. Os investidores mudam de direção ao sabor das notícias — completa o gestor de renda variável da Yield Capital, Herzs Ferman.

Devido à sua exposição à dívida grega, os papéis dos bancos franceses BNP Paribas, Société Générale e Crédit Agricole caíram até 12% ontem. Também continuaram a circular rumores de que a agência internacional de classificação de risco Moody’s poderia rebaixar a nota desses bancos quando encerrar sua avaliação, em meados deste mês. As ações do BNP caíram 12,35%, a seu menor patamar em dois anos e meio. O Société Générale caiu 10,75%, e o Crédit Agricole, 10,64%.

Nos EUA, o Bank of America (BofA) anunciou a demissão de 30 mil funcionários, para aumentar os lucros.

No Brasil, a redução das perdas foi puxada pelos papéis mais negociados: as ações PN (preferencial, sem direito a voto) da Petrobras, com alta de 0,94%, a R$20,34, e da Vale, que subiram 0,86%, a R$41,28. A maior queda foi a Braskem PN, perdendo 3,02%, a R$16,72.