Arco de fogo

Veículo: O Globo
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A Europa deveria olhar para a América Latina dos anos 1980/1990. Não há soluções milagrosas quando as dívidas dos países não conseguem ser pagas. Não há remédios parciais numa região onde há problemas parecidos. Não há preço a ser pago só de um lado. Todos vão perder um pouco: bancos, governos, populações. Ontem, foi mais um dia de beira do precipício, salvo no instante final.

No começo do dia, a notícia que derrubava bolsas pelo mundo afora era que a Grécia ia quebrar, e que isso contaminaria países e instituições, a começar pelos bancos franceses mais expostos à dívida grega. No fim do dia, houve redução das perdas, porque correu a notícia de que a China ajudaria comprando dívida italiana.

A Europa irá de surto em surto até encontrar soluções definitivas. Tudo que ela tem feito é pouco e tarde. O tamanho do mar vermelho que se espalhou pelas dívidas soberanas é grande demais. Quem viveu uma crise dessas, como a América Latina, sabe a hora em que o único caminho é todos sentados na mesa distribuindo os prejuízos.

Vários países do continente só sairão dessa através de um plano como o Plano Brady. Mas para lembrar: a quebradeira da América Latina começou em setembro de 1982 e a solução para a dívida brasileira só foi encontrada no começo dos anos 1990, quando o economista Pedro Malan assumiu a negociação com os bancos externos, e eles trocaram a velha dívida pela nova com grande desconto.

Na Grécia, o que se tenta é uma troca parecida, mas bem suave. Abriu-se um programa em que os bancos teriam que aceitar trocar parte da dívida velha por dívida nova. Esse período se esgotou e o nível de adesão pode não ter sido suficiente para fechar o acordo. A Europa acha que pode fazer uma renegociação em que os bancos percam apenas na Grécia. E que novos calotes não seriam tolerados. Engana-se.

O grande problema europeu é que a arquitetura da Zona do Euro não foi programada para dar errado. Não foi pensada com um plano B, saída de emergência, colete salva-vidas. Enquanto deu certo, deu muito certo. Mas no meio de uma crise, a governança é lenta demais. A Corte Alemã considerou constitucional a ampliação do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (Feef). Beleza. Mas isso só resolveu a dúvida da semana passada. Agora, os parlamentos precisam dizer o que acham. Os eleitores dos países que vão sofrer o impacto dos ajustes também acabarão se fazendo ouvir. Ninguém quer pagar o preço, e quanto mais tempo demorar maior será a conta a ser paga por todos.

Alguns países da zona monetária quebraram. E daí, o que fazer? As dívidas estão com os bancos dos próprios países, dos países vizinhos, do Banco Central Europeu. O Feef mesmo depois de ampliado é pequeno demais para o tamanho do resgate. Não há deuses suficientes no Olimpo para resolver sem dor o problema grego, até porque ele não é apenas grego. Lá, fica apenas a ponta de lança.

A Grécia afunda na recessão. Já se sabia, também pela mesma história latino-americana. Quando se pede ajuste demais a um país endividado, o que ele colhe é menos capacidade de pagar porque aumenta a recessão. A Argentina afundou de tal modo que no final a saída teve que ser agressiva, com declaração de moratória unilateral.

A Grécia espera uma recessão de 5,3% este ano, mais do que os 3,8% calculados pela Comissão Europeia. O déficit deve ficar em 8% do PIB, a dívida é de 152% do PIB. O risco de calote grego deu um salto a 98%, como se vê pelo preço do CDS, o seguro contra calote. O cálculo feito pelo mercado é que hoje custa US$5,8 milhões para fazer seguro de US$10 milhões de dívida grega.

Terminou na sexta-feira o prazo de adesão do mercado ao pacote de socorro da Grécia, mas ele pode ser ampliado. Há informações contraditórias no mercado brasileiro: relatórios dizendo que eles conseguiram uma adesão de 90% dos credores para o pacote, que representaria perda de 20% do valor de face da dívida, mas há quem diga que na verdade a adesão chegou apenas a 70%. Na quarta-feira, o FMI se reúne para deliberar sobre o pacote de ajuda. As ações dos bancos europeus — especialmente os franceses — mergulharam. A Moody’s ameaçou rebaixar a nota dos bancos franceses.

Uma das soluções apontadas pelos economistas é deixar a Grécia dar o calote e capitalizar os bancos. Seria uma solução, se a Grécia fosse o único país com problemas. Mas como todos sabem, o maior medo é de um contágio, uma piora na crise de confiança que atinja um país realmente grande. Por isso a notícia de que a China estava comprando dívida italiana foi o que fez o mercado financeiro respirar ontem à tarde do lado de cá das Américas. O Ibovespa reduziu as perdas, e as bolsas americanas fecharam em alta. O dia foi melhorando no passar das horas. Mas como sempre não há bom humor garantido.

Normalmente, o que acontece quando há um movimento assim é que a Ásia abre positiva refletindo a alta dos Estados Unidos, mas tudo depende das notícias ao longo do dia.

O mundo está vivendo da mão para a boca. Passa períodos de calmaria para depois ter novas ondas de preocupação. Dos Estados Unidos o medo é de não haver retomada do crescimento; da Europa, é mais agudo. Teme-se esse desconhecido que é uma crise de dívida soberana numa grande região que tem uma moeda só. Aqui, na nossa crise, pelo menos cada um tinha sua própria moeda, sua própria dívida, e as economias não eram tão conectadas como são agora.