Na Bolsa, empresas menores sofrem menos

Veículo: O Globo
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As ações de empresas de menor porte, as chamadas small caps, vêm sofrendo menos com os solavancos da crise global. O Índice Small Caps (SMLL), composto por papéis de empresas de menor valor de mercado listadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), está com desempenho superior ao do principal indicador do mercado, o Ibovespa. Enquanto o Ibovespa caiu 3,96% em agosto e 19,52% no ano, até sexta-feira, o SMLL recuou 2,65% em agosto e acumula desvalorização de 13,48% no ano.

O fato de as small caps geralmente serem mais voltadas para o mercado interno, de serem menos influenciadas pela perspectiva de desaceleração no crescimento da economia global e, consequentemente, por quedas na cotação das commodities (matérias-primas negociadas internacionalmente) ajuda a explicar o desempenho, segundo especialistas.

Conhecer bem os riscos, porém, é condição fundamental para aproveitar as oportunidades. Por serem de empresas de menor porte, esses papéis geralmente têm menos liquidez, com baixos volumes de negociação. Por isso, nem sempre é fácil encontrar compradores e vendedores — reforçando a importância de o recurso investido não ser necessário a curto prazo. Em geral, a recomendação é aplicar em ações small caps como forma de diversificar o investimento em Bolsa.

Bolsa tem fundo que reúne os papéis de ‘small caps’

— Num momento de volatilidade, as ações de small caps podem perder muito, pois, se um grande investidor estrangeiro, por exemplo, resolve vender seus papéis, joga as cotações para baixo — alerta a estrategista-chefe da Ativa Corretora, Mônica Araújo.

Para orientar-se na escolha das small caps, o investidor pode seguir as recomendações da corretora ou aplicar num fundo de ações disponível nos bancos ou nas corretoras. Há ainda a opção do Exchange Traded Fund (ETF, fundo de ações que replica carteiras teóricas de índices de ações e tem cotas negociadas em pregão da Bovespa). O ETF específico das small caps, o SMLL11, reproduz o Índice SMLL.

Desde o início do ano, por exemplo, a XP Investimentos incluiu uma carteira de small caps entre suas recomendações para os clientes. Em agosto, a Carteira XP Small Caps teve valorização de 1,6%, contra os 3,96% de queda do Ibovespa. No ano, até agosto, a perda acumulada é de 7%, menor do que os 18,48% acumulados pelo Ibovespa no mesmo período.

— Temos boas empresas de menor porte na Bolsa — avalia William Castro Alves, analista da XP Investimentos, informando que a estratégia para a composição da carteira é escolher empresas com histórico interessante e cujas ações estejam por bons preços.

A composição da Carteira XP Small Caps para setembro inclui Randon (fabricante de autopeças), Mills (prestadora de serviços industriais e de engenharia), Santos Brasil (operadora de contêineres), JSL (transportes e logística) e São Martinho (produtora de etanol e açúcar). Segundo Castro Alves, desde o lançamento da carteira, a corretora tem feito, em média, uma mudança por mês na composição.

Preços são mais baixos, o que reduz espaço para quedas

Outra corretora que possui carteira de small caps é a Gradual. Para setembro, a composição inclui Ferbasa (fabricante de ligas de ferro), Eternit e Eucatex (fabricantes de material de construção), Valid (sistemas de identificação e telecomunicações) e Saraiva (livraria). O analista-chefe da Gradual, Paulo Esteves, dá mais uma explicação para o bom desempenho das ações de small caps neste ano de baixa:

— Essas empresas têm múltiplos (relação entre o preço da ação e o lucro ou o valor patrimonial da empresa) mais baixos, porque são menos líquidas e menos acompanhadas pelos analistas. Mas, como as ações já são mais baratas, elas têm menos espaço para cair.

Já a Ativa Corretora prefere não indicar uma carteira exclusivamente com small caps. Segundo Mônica Araújo, a estratégia é incluir ações do tipo nos três segmentos de carteira recomendados pela corretora: longa, de dividendos e de giro.

— Procuramos avaliar as oportunidades — diz a estrategista-chefe da Ativa, para quem uma carteira só com small caps representa risco maior.

Apesar dos riscos, Werner Roger, gestor da Victoire Brasil Investimentos, aposta que a desvalorização na Bolsa neste ano pode estar abrindo oportunidades de investimento em small caps, com algumas "pechinchas".

— O Índice SMLL cai acima de 10% no ano, mas algumas dessas empresas aumentaram os lucros em 20% — pondera Roger, destacando os múltiplos cada vez mais baixos.

Castro Alves, da XP Investimentos, concorda que há oportunidades entre as small caps. Para ele, outra vantagem das empresas de menor porte é justamente o crescimento acelerado da receita e do lucro. No entanto, os riscos desse investimento incluem não só a falta de liquidez e a alta volatilidade, mas também a menor capacidade dessas empresas para enfrentar momentos ruins em seus negócios