Perdas e gastos

Veículo: O Globo
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Entre os problemas econômicos que aparecem com mais destaque estão as taxas de juros recordes mundiais e a perda sistemática de participação da indústria de transformação no PIB, processo esse que alguns chamam de “desindustrialização”.

Herdamos taxas de juros altíssimas da conturbada fase pré-2003, que têm caído na fase de círculo virtuoso (2003-2008), mas as brasileiras ainda estão longe de chegar perto das taxas médias mundiais, mesmo em relação aos níveis praticados antes da crise de 2008/2009.

A chamada desindustrialização foi resultado natural da convergência de várias tendências. O Brasil reorganizou sua gestão macroeconômica e, assim, se candidatou a ser um forte receptor de capitais num mundo em ebulição econômica. De 1996 a 2007, o consumo da maior economia, os EEUU, cresceu em média a 3,6% ao ano, algo inédito, puxando, conjuntamente com os demais países desenvolvidos, o forte crescimento do PIB chinês, entre 9% e 10% ao ano. Os preços médios das exportações brasileiras, especialmente de commodities agrícolas e minerais, dispararam. Na sequência, o Brasil foi inundado de dólares, a ponto de acumular nível inédito de reservas internacionais.

O Brasil adota um modelo econômico em que o carro-chefe é o crescimento do consumo. Só que a nossa carruagem é puxada por gastos públicos correntes crescentes, em que predominam as transferências de previdência e assistência. Em conjunto com o impulso externo pós-2003, a demanda crescente dos últimos tempos se espalhou pelos vários setores da economia, provocando uma tendência natural à apreciação real da taxa de câmbio, pois os preços dos produtos não comercializáveis com o exterior (basicamente serviços) passaram a subir relativamente aos demais. Nesses, aliás, os preços são determinados basicamente fora do país. Em tese, isso atrai produtores para os primeiros (onde a oferta só cresce se a produção interna aumentar), e os afugenta dos demais.

No setor de serviços, os preços são determinados pelas forças de demanda e oferta (por isso subiram mais que os dos demais). A demanda por serviços tem sido forte, mas a oferta interna é fraca, pois o país, especialmente no tocante ao setor público (que tem alto peso em serviços, especialmente transportes) é voltado, ao contrário da China, para consumo — e não produção.

Dentro dos demais setores, a indústria teve de enfrentar a concorrência predatória da Ásia, com quedas sucessivas nos preços externos, e o setor de commodities, ao contrário, se beneficiou da forte demanda chinesa e da resultante disparada dos preços internacionais. Em conjunto com a inundação de capitais no país, atraídos pelas altas taxas de juros e pela maior rentabilidade dos setores de serviços e commodities, todos esses fatores acentuaram a tendência natural à apreciação cambial e à geração de elevados déficits externos com a consequente absorção de poupança externa. Não é de admirar, portanto, que a taxa de câmbio nominal tenha caído sistematicamente e o peso da indústria de transformação no PIB total tenha caído tanto nos últimos anos.

Nesse quadro, nada mais natural que as taxas de juros caíssem, embora, de tempos em tempos o BC fosse forçado a subir sua taxa básica, Selic, quando o efeito altista sobre o IPCA vindo especialmente de serviços ultrapassa o efeito baixista oriundo da apreciação cambial e dos preços internacionais industriais em queda. Dada a maior força dos efeitos altistas, a queda das taxas empacou nos atuais níveis, níveis esses ainda muito altos.

Para os juros caírem mais, é preciso que se abra um largo espaço na demanda agregada, a ser preenchido posteriormente por nova demanda privada (especialmente de investimento). Ou seja, a ser aberto por forte redução dos gastos públicos correntes, o que, infelizmente, bate de frente com o modelo político em vigor. Além disso, é preciso aumentar o peso dos investimentos nos gastos correntes (o que envolve cortes adicionais destes), aumentar a eficiência do gasto público em geral e, por fim, aumentar os incentivos para uma maior participação do capital privado nas áreas onde hoje o setor público investe. Essas medidas diminuiriam o estímulo à entrada de capitais de curto prazo, além de reduzir a necessidade de poupança externa para financiar o investimento brasileiro. Atenuariam, assim, a tendência à apreciação real da taxa de câmbio e ao forte encolhimento da indústria.

De forma inesperada, a crise de 2008 abriu um grande espaço na demanda, dessa feita pelo lado externo. Se o governo não tivesse aumentado tanto o gasto público em seguida, as taxas de juros poderiam ter caído mais. O Banco Central parece estar agora achando que se abrirá outra janela semelhante. Tanto que, ao risco de perda de reputação, mas amparado nas declarações oficiais de mudança da postura fiscal expansionista, resolveu iniciar a queda de juros, sem a certeza se haverá mesmo esse espaço. A desaceleração ainda presente na economia mundial não parece tão forte para a maioria dos analistas. Já o programa de ajuste do gasto público para valer ainda é um ilustre desconhecido.