Nem tanto

Veículo: O Globo
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A perda de fôlego da indústria brasileira reacendeu o temor diante das importações, mas as estatísticas ainda não confirmam essa avalanche. Ivan Ramalho, que passou grande parte da sua carreira no serviço público e dedicando-se ao comércio exterior (inclusive como ministro), diz que dos 50 produtos chineses mais importados pelo Brasil, nove são bens de consumo acabados.

E mesmo assim não estão no alto da lista. Ivan preside há três meses a Associação Brasileira das Empresas de Comércio Exterior (trading companies). Após 16 anos no Ministério do Desenvolvimento, metade dos quais como secretário-executivo — e eventualmente como ministro interino — pulou para o outro lado do balcão, mas sem perder o hábito de analisar com lupa os números das exportações e importações. Segundo ele, menos de 20% das importações brasileiras correspondem a bens de consumo, entre os quais os automóveis. E os demais 80% se referem a máquinas, equipamentos, matérias-primas, insumos e bens intermediários importados fundamentalmente pela própria indústria.

Em termos macroeconômicos, um estudo realizado por Michal Gartenkraut (da Rosenberg & Associados), para a associação, mostra que as importações têm mantido a sua proporção no Produto Interno Bruto (PIB), mesmo com o real valorizado. Isso não significa que haja problemas setoriais.

O temor das importações, segundo os dois, tem ofuscado o bom desempenho do comércio exterior brasileiro. Tanto a Abece como a Rosenberg estão projetando para este ano um saldo da balança comercial superior a US$24 bilhões. “E metade disso será decorrente do movimento das trading companies”, garante Ivan Ramalho. Esta semana, estatísticas mais detalhadas da Secretaria de Comércio Exterior especificarão, pela primeira vez, a participação das trading das exportações e nas importações.

A Holanda redescobriu o Brasil quase 450 anos depois da investida feita no Nordeste pela Companhia das Índias Ocidentais. Nas Américas, junto com os Estados Unidos, o país foi escolhido como parceiro prioritário, pois o governo holandês enxerga aqui diferentes oportunidades de investimentos e negócios para empresas de todos os tamanhos. Desse modo, os holandeses já estão envolvidos na ampliação de portos no Espírito Santo e no projeto do segundo terminal portuário do Açu (Eike Batista). Estarão à frente, e por 35 anos, da administração do novo estádio da Fonte Nova, em Salvador (e se depender da vontade deles poderão assumir mais duas ou três arenas multiusos no país).

E no Rio, além de toda a cadeia produtiva do petróleo e gás, esperam contribuir para que as ciclovias se tornem de fato uma via de transporte rotineiro na cidade, oferecendo assessoria no planejamento de rotas e sinalização adequada. Essa investida, aliás, ficará evidente com a participação que programaram para o passeio ciclístico deste sábado. Um grupo considerável de ciclistas com camisetas cor de laranja percorrerá a orla, pedalando em bicicletas da Houston Bikes, fábrica piauiense, de capital brasileiro, que usa tecnologia holandesa. No quiosque que a KLM montará para receber os ciclistas, as recepcionistas estarão vestidas com traje típico. Em novembro, a companhia aérea passará a ter voos diretos de Amsterdã para o Rio, com planos de torná-los diários. O próprio ministro das bicicletas (sim, eles têm um ministro dedicado a esse meio de transporte) virá ao Brasil para o evento.

O cônsul geral da Holanda no Rio, Paul Comenencia, já se aventura a andar de bicicleta pela cidade, mas confessa que se confunde com a sinalização. Não sabia, por exemplo, que poderia ir de sua casa, na Lagoa, para o consulado, na Praia de Botafogo, só por ciclovia e sem passar pela orla. Paul nasceu em Curaçao, onde, além do holandês, se fala o papiamento, uma língua que tem muitas expressões e palavras originárias do português (isso porque vários holandeses saíram de Pernambuco para as Antilhas no século XVII, depois que os planos da Companhia das Índias Ocidentais fracassaram). Em Curaçao, podemos cumprimentar as pessoas com um “bom dia”, preveni-las para não caírem em um “buraco”, ou pedir para que alguém “não mexa” em alguma coisa. Quando chegou aqui, há dois anos, o cônsul, que não havia estudado português, percebeu que a melodia da língua lhe soava muito familiar. Hoje, ninguém acredita que esteja no Brasil há tão pouco tempo.

O último leilão de energia, promovido pela Aneel, foi um sucesso, entre outros aspectos pela surpreende participação das usinas eólicas, cujos geradores são acionados pela força dos ventos. Essas usinas estão se tornando cada vez mais potentes, mas há também um mercado se formando para aerogeradores de pequeno porte. A Enersud, por exemplo, única indústria de capital nacional desse segmento (e que funciona em Inoã, Maricá) já vendeu mais de 200 equipamentos. A maioria dos compradores é de proprietários rurais, que usam esse tipo de energia para bombeamento de água nos seus sistemas de irrigação.

São equipamentos que, instalados, custam cerca de R$40 mil e servem ainda para instalações isoladas (antenas de telecomunicações), pois têm a possibilidade de funcionarem junto com placas fotovoltaicas, de energia solar.

O próximo passo da empresa é desenvolver um aerogerador com eixo vertical, que, além de mais silencioso, poderá ser instalado no alto de casas e edifícios. Um dos obstáculos à expansão do mercado urbano é que os medidores de consumo de energia não “andam para trás” no Brasil. A legislação e questões técnicas não permitem que o excedente de eletricidade gerado em residências seja injetado no sistema de distribuição. Desse modo, uma residência que queira ser autônoma, tem de usar um sistema interno dedicado, sem conexão com o que vem da rua. Então, o estímulo para uso da energia eólica em casas e edifícios residenciais é hoje mais ambiental do que econômico.