"Juros baixos e piora fiscal são vistos como uma fórmula para o desastre"

Veículo: O Globo
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Preocupado quanto à real intenção do governo de manter o equilíbrio fiscal, o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco está entre aqueles que não bateram palmas para a guinada dada pelo BC ao baixar os juros na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Sócio da gestora de recursos Rio Bravo, Franco considera que "a fórmula para o desastre é a combinação de redução nos juros com piora na situação fiscal".

Depois de ser acusado inúmeras vezes de ter perdido a oportunidade, em 2008, de cortar os juros, o BC parece agora estar disposto a não repetir o erro. Só que a decisão acabou provocando uma saraivada de críticas. Uma delas é a de que o regime de metas de inflação teria sido abandonado em prol da manutenção de uma taxa de crescimento.

GUSTAVO FRANCO: Acho que existem pelo menos três enredos diferentes convergindo nesta decisão: o primeiro é a perspectiva, ainda não materializada, de uma crise de verdade na Europa. O segundo é o desejo de empreender as reformas necessárias para se reduzir a chamada “taxa de juros neutra”. E o terceiro é a motivação política, que nada tem de óbvia. Como a crise europeia ainda não aconteceu, e pode muito bem não acontecer, o BC se postou cautelosamente ao lado da prudência e cada má notícia que vier da Europa parecerá uma confirmação do acerto da decisão. Com relação à “taxa neutra”, que os analistas colocam em números muito altos (9% ou 10%), é bem-vinda a nova abordagem do governo segundo a qual é preciso melhorar as contas fiscais para abrir espaço para a queda dos juros. Só é preciso que o governo realmente entregue números melhores, o que não vai ser fácil, especialmente diante de um Congresso e de governadores ansiosos por mais gastos. Nesse quadro, a decisão do BC e o objetivo declarado de arrumar as contas públicas parecem abrir uma nova etapa no relacionamento entre Executivo e Congresso, na qual o Executivo fechou as torneiras, com o intuito de enquadrar a base, e as reações têm sido agressivas: votar a emenda da saúde, acabar com o fator previdenciário e coisas do gênero. O Executivo, por ora, não se deixou chantagear: querem mais gasto, então aprovem a CPMF, e todos ficam paralisados, pois este seria um cenário horrível. Em vez disso, seria ótimo que tivéssemos verdadeiros progressos na área fiscal, e que não houvesse a crise que se teme. Essas, todavia, são as incertezas à frente.

Os economistas se dividiram: alguns acham que abrir mão do controle da inflação seria um risco político sem precedentes, enquanto outros bateram palmas para a guinada do governo. E o senhor acha que o momento foi oportuno ou a diretoria do Banco Central teria avaliado incorretamente os cenários doméstico e internacional?

FRANCO: O quadro é mais complexo do que isso. Mas não se pode descartar o cenário onde não há crise, nem ajuste fiscal, caso em que a inflação vai se acelerar e vai ser testado um novo patamar. Este seria um caminho parecido com o da Argentina, e provavelmente a nossa presidente ouviu o conselho de sua colega argentina no sentido de que os brasileiros estão preocupados demais com a inflação. São conselhos de argentinos, que não devemos seguir, pois para eles pode fazer sentido que a inflação seja o menor dos males. Não para nós.

Na tentativa de responder às críticas, o governo, ao divulgar a ata do Copom, tentou mostrar que continua comprometido com o controle da inflação e que está apostando numa convergência para a meta em fins de 2012. Só que alguns indicadores macroeconômicos apontam para o lado contrário, com o aumento do mínimo em 2012, baixíssima taxa de desemprego e resquícios de indexação.

FRANCO: Acho que a ata e o comunicado mostram o quanto é possível tergiversar sobre macroeconomia numa conjuntura difícil, especialmente diante de decisões subjetivas. Preocupa-me o BC saber mais do que diz sobre os bancos na Europa, e também a capacidade desta administração entregar contas fiscais mais arrumadas, especialmente tendo em vista a montanha de declarações na direção contrária do ministro da Fazenda e sua equipe, que, há anos, repetem que a ênfase no equilíbrio fiscal é coisa de neoliberais. Isso para não falar do que já está encomendado em novos gastos. O fato é que a fórmula para o desastre é a combinação de redução nos juros com piora na situação fiscal.