Ainda de olho na inflação?

Veículo: O Globo
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Numa tentativa velada de rebater as várias críticas recebidas na semana passada, quando surpreendeu até o menos conservador dos economistas ao cortar em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juros da economia, a Selic, o Banco Central (BC) explicou ontem a decisão na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) num tom mais claro e didático do que o usual. Acusado de sucumbir às pressões políticas, passando a mirar em crescimento em vez da inflação, o BC quis mostrar que ainda está comprometido com o sistema de metas (o objetivo central é de 4,5% para este ano e para 2012) e que não o abandonou para dar prioridade ao crescimento. Segundo o texto, a crise internacional deve ser menos aguda que em 2008, mas vai durar mais que o esperado e isso abre espaço para quedas moderadas da Selic.

“Taxas de inflação elevadas não trazem qualquer resultado duradouro em termos de crescimento da economia e do emprego, mas, em contrapartida, trazem prejuízos permanentes para essas variáveis no médio e no longo prazos”.

O Comitê alega que as principais economias do mundo crescerão menos e não têm tantos instrumentos disponíveis para estimular a atividade. E, mesmo com pressões inflacionárias, decidiram parar de subir os juros.

“As incertezas foram amplificadas, desde a última reunião do Copom, em parte devido à revisão da classificação de risco da dívida soberana dos Estados Unidos”, diz a ata.

Não foi apenas o mercado que questionou o momento de começar a cortar os juros. Houve dúvida no próprio Copom: cinco dos sete diretores aprovaram a queda de 12,5% para 12% ao ano, enquanto o mercado esperava manutenção. Essa também foi a aposta de dois dos integrantes do Copom.

"Dois membros do Comitê avaliam que o momento atual ainda não oferece todas as condições necessárias a que esse movimento tenha início imediatamente", diz o documento.

Entretanto, a ata quis deixar claro que eles foram unânimes ao reconhecer que o mundo mudou bastante desde sua última reunião. E isso justificaria uma reavaliação. Para a maioria dos diretores, foi o momento certo e, mesmo com os futuros cortes, a inflação voltará para a meta de 4,5% em 2012. A ata garante que o pico de inflação é neste trimestre. A partir daí, cairá até chegar a 4,5% no fim do ano que vem, apesar do mercado de trabalho e do crédito, que seguem em alta mesmo que num ritmo menor.

BC desconsiderou fatores importantes

O BC assegura que olha a inflação futura e usa cenários alternativos. Afirma que a política fiscal contribui também para um cenário mais estável, onde o BC tem mais poder de fogo.

— O Banco Central não tem outra meta a não ser a meta de inflação — reforçou o presidente da instituição, Alexandre Tombini, em entrevista à “Globonews” ontem.

Segundo economistas, porém, a autoridade desconsiderou ou deu pouca importância a questões importantes e que podem ter forte pressão sobre a inflação. É o caso, por exemplo, do aumento do salário mínimo, das elevadas cotações das commodities agrícolas e da indexação dos preços de serviços, entre outros.

Para Luiz Otávio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil, a principal fonte de preocupação está no elevado nível de emprego e o aumento de renda da população. Ele acredita que o potencial inflacionário do aumento do salário mínimo em 13,6% a partir de janeiro do ano que vem, para R$619,21, pode estar sendo subestimado.

— Estamos entrando nessa crise com uma inflação de serviços de 8,93% em 12 meses, que é maior do que a registrada em 2008 e 2009. E, naqueles anos, esse grupo de preços recuou apenas um ponto percentual com a crise — lembra Leal. — A grosso modo, se essa crise atual terá o impacto de um quarto da crise anterior, como está na ata do Copom, a inflação de serviços recuaria agora apenas 0,25 ponto.

Para o economista Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central, a autoridade monetária pode também estar subestimando a inércia inflacionária, a chamada indexação. Ele explica que a inflação presente, que acumulou 7,23% em 12 meses pelo IPCA, será aplicada no reajuste de serviços como escolas, estacionamentos, passando para frente uma inflação passada:

— O BC tem gordura para queimar, que são os juros muito altos no Brasil. Mas ele pode ter queimado essa gordura antecipadamente, no escuro. Se acertou ou não, só o futuro vai dizer.

Afinidade com a Fazenda está maior

Além da pressão dos preços de serviços, economistas antecipam alta das commodities agrícolas por causa de eventos climáticos nos EUA, que afetaram a safra de trigo, milho e soja. No Brasil, a entressafra da cana vai pressionar os preços do açúcar e do álcool. Na ata, o BC evidenciou ainda sua aposta na política fiscal mais restritiva do governo, o que foi apontado como arriscado por economistas. Eles lembram que o aumento do superávit primário (economia para pagamento de juros da dívida) em R$10 bilhões — anunciado na semana passada — ocorre por uma receita atípica de R$6 bilhões no orçamento, oriunda de uma multa que será paga pela Vale, após derrota judicial referente a CSLL.

Alguns economistas aprovaram a ata. Para o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, o BC conseguiu justificar o que vê neste momento. Segundo ele, o Copom mostrou que não será tão agressivo nos próximos cortes:

— Só não ficou clara a razão de fazer o corte tão rapidamente em agosto.

Para o professor da Unicamp Francisco Lopreato, essa mudança na combinação de políticas monetária e fiscal mostra uma nova forma de controlar a inflação no Brasil e evitará o “erro de 2008”, quando o BC demorou demais para cortar os juros e estancou o crescimento do país.

— Existe uma afinidade melhor, hoje, entre a Fazenda e o BC, que vai evitar aquele erro, ao meu ver grosseiro, do (ex-presidente do BC Henrique) Meirelles — disse o professor. — Foi uma audácia, mas daria para esperar para ver o que vai acontecer?

Segundo o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Júlio Almeida, os economistas brasileiros estão muito otimistas, enquanto o mundo inteiro espera retração das economias. Ele acredita que o BC está em sintonia com as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e outros organismos multilaterais.

— A questão de fundo é saber se o BC está certo ou errado na sua avaliação. E isso vamos saber daqui a pouco — afirmou Almeida.