Economistas: ainda não é a hora de reduzir a taxa básica de juros do país

Veículo: O Globo
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Apesar dos sinais de desaceleração da economia, analistas acham que a autoridade monetária não deveria reduzir a taxa básica de juros, como já defende parte do governo. A aposta dos economistas ouvidos pelo GLOBO é que a reunião da semana que vem do Comitê de Política Monetária (Copom) decida pela manutenção da Selic em 12,5% ao ano.

Para o economista-chefe do Itaú, Ilan Goldfajn, só haveria espaço para corte imediato da taxa num cenário de piora da crise internacional no futuro próximo. Isso permitiria uma redução dos preços de commodities, o que abriria espaço para reduzir os juros internamente, sem elevar a inflação.

—- Reduzir os juros depende do cenário dos próximos dois meses. Se as condições financeiras internacionais não melhorarem, aí a gente caminha para ter espaço para a redução de juros —- disse Goldfajn, durante seminário sobre mercados financeiros promovido pela BM&FBovespa; em Campos do Jordão (SP). Ele espera manutenção em 12,5% na próxima reunião.

Alessandra Ribeiro, economista e sócia da consultoria Tendências, também é a favor de uma “parada técnica” da Selic em 12,5% na reunião da próxima semana do Copom. Segundo ela, a contaminação da crise ainda não está clara, a redução do crédito ainda é pequena, e a queda do consumo, modesta. Outro ponto que não está claro é o quadro de inflação. A expectativa da Tendências é de uma inflação de 6,6% este ano, puxada pelos dissídios das principais categorias de trabalhadores no segundo semestre.

— Não estamos vendo espaço para uma redução dos juros como parte do mercado e do governo estão antevendo — disse Alessandra.

Patamar ideal para taxa de juro real seria de 1,75%

Já o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco disse que o desafio do governo hoje é deslocar para baixo a curva de juros reais, hoje a mais alta do mundo. Segundo ele, o patamar ideal dos juros reais brasileiros é de 150 pontos acima da taxa americana, de 0,25% ao ano. Isso resultaria numa taxa real de 1,75% ao ano, algo impensável hoje. Ele descartou que a crise possibilite a redução de juros:

— Havia certa esperança de que a crise agora fosse igual à de 2008 em que se abriria uma janelinha para o choque externo que permitiria a redução da taxa de juros, mas isso não aconteceu. Portanto, agora só o aperto fiscal pode resolver essa questão, com a elevação do superávit primário que hoje é de 4%.

Para ele, o atual superávit só é suficiente para manter a taxa de juros nos patamares atuais. Uma redução de juros, disse, exigiria economias primárias maiores.

Rogério Mori, professor de economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), também aposta em uma “parada técnica”, antes de o Copom tomar a decisão de cortar os juros. Os fatores que podem apressar essa decisão são a desaceleração da economia interna, a evolução da crise internacional e o resultado do aperto fiscal do governo:

—- Esses dois primeiros fatores, que dependem do desempenho da economia, são mais factíveis de acontecer até o fim do ano. Tudo depende da intensidade dessa desaceleração econômica. De qualquer forma, a manutenção do ciclo de alta de juros está descartada.

Outro ex-presidente do BC, Arminio Fraga, que participou do Congresso em videoconferência, também diz que uma taxa de juros mais baixa depende de como será a política fiscal brasileira. A redução da Selic, segundo ele, seria o melhor remédio para o real valorizado.

—- Do ponto de vista mais conjuntural, é muito bem-vinda a mudança do mix da política macroeconômica, com a clara intenção de segurar o lado fiscal, deixando espaço para a política monetária, para finalmente conseguirmos chegar a uma taxa de juros mais baixa —- disse ele.

O secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, disse que o governo mantém seu compromisso com a austeridade fiscal desde o início do ano, quando cortou R$50 bilhões no Orçamento. O equilíbrio fiscal, disse, permitiria um corte dos juros.

— Construímos um equilíbrio — afirmou Augustin.