Para mercado mundial a França é a bola da vez

Veículo: DCI
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Os principais índices do mercado de ações da Europa fecharam em baixa em meio a rumores sobre a possibilidade de o rating de crédito da França ser rebaixado. Isso adicionou mais um tempero ao caldeirão da crise das dívidas soberanas da zona do euro e pesou particularmente sobre os papéis de bancos. No meio da tarde de ontem as três principais agências de análise de risco - Standard & Poors, Moodys Investor Service e Fitch Ratings - reafirmaram o rating de crédito AAA da França, em meio à elevação das taxas de retorno (yield) dos bônus franceses com a intensificação das preocupações relacionadas com a crise da dívida europeia. "Toda essa questão de sustentabilidade da dívida se estendeu para a Itália, para a Espanha e agora para a França e vai exercer um peso sobre o mercado por bastante tempo", disse Mike Lenhoff, estrategista-chefe da Brewin Dolphin.

A situação se agravou depois que o presidente francês, Nicolas Sarkozy, decidiu suspender suas férias para uma reunião de emergência com ministros e o presidente do banco central do país, Christian Noyer, para discutir a crise financeira. Na opinião da coordenadora do Centro de Comércio Exterior da Fundação Getúlio Vargas, Lia Valls, a reação dos mercados foi exagerada e mostra que os ânimos estão exaltados. "Na realidade, as agências já indicaram que entendem que tanto a França como a Inglaterra têm mostrado seriedade nos assuntos fiscais e não existe problema neste momento que justifique mudança no status dos dois países."

Para ela, no caso da França a preocupação deve ser com o risco de Espanha e Itália terem que buscar auxílio externo para suas dívidas. "O fundo de ajuda da zona do euro já não tem recursos suficientes e seria necessário novo aporte dos países na União Europeia. E os principais países que têm destinado recursos para essas ajudas são França e Alemanha", afirma. "Entendo que é preciso que esses dois países dêem sinal de como pretendem lidar com as crises dos países da zona do euro pois a incerteza sobre a ajuda também têm causado nervosismo nos mercados e dado oportunidade para especuladores estimularem ainda mais as oscilações nas bolsas pelo mundo".

Ontem o presidente da França, Nicolas Sarkozy, disse que o governo irá reunir-se no dia 24 para considerar novas medidas de convergência do déficit do país para a meta. A informação é do encontro de emergência convocado pelo presidente com seus ministros e o presidente do banco central francês, diante do temor de que o país enfrente contágio da crise de dívida soberana europeia, que já ameaça a terceira e a quarta maiores economias da zona do euro (Itália e Espanha). Sarkozy interrompeu suas férias de três semanas para realizar a reunião. O encontro antecede também a divulgação do PIB do segundo trimestre, amanhã.

Desde o início da semana, o custo de proteção contra eventual calote da dívida da França atinge níveis recorde. Entre os países com rating AAA da zona do euro, a França é o que apresenta a maior dívida e a maior taxa de dívida em relação ao PIB. Ontem, o ministro do Orçamento, Valerie Precesse, disse que o país deve cumprir seus planos de melhora das finanças públicas se quiser assegurar o rating AAA.



A perda da nota AAA pela França teria implicações graves, que vão além das que envolvem diretamente o país. Os títulos do governo da França são, depois dos da Alemanha, os mais importantes em termos de garantias na Linha de Estabilidade Financeira Europeia - o fundo de resgate dos países com problemas na zona do euro utiliza títulos AAA para tomar empréstimos a taxas reduzidas e emprestar aos países que acessam o programa.

EUA

No entanto, as notícias ontem não foram boas. O déficit orçamentário dos EUA no ano fiscal 2011 superou US$ 1 trilhão em julho, mas ficou abaixo do volume registrado em igual período do ano fiscal anterior, de acordo com dados do Tesouro do país.

Segundo um relatório do órgão, no mês passado os EUA gastaram US$ 129,38 bilhões a mais do que arrecadaram, o que ampliou o déficit no orçamento do país para US$ 1,1 trilhão no atual ano fiscal, que será encerrado em setembro.