Produção industrial de São Paulo cai 1,5% em junho

Veículo: Valor Econômico
Seção: Brasil
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A queda de 1,6% na produção industrial em junho foi espalhada em nove das 14 regiões analisadas pelo IBGE, conforme divulgado ontem na Pesquisa Mensal Industrial regional. Analistas, no entanto, consideram mais preocupante o recuo de 1,5% na indústria de São Paulo, a mais diversificada do país, que havia crescido 1,3% em maio, depois de recuar 3,8% em abril. No segundo trimestre, a produção do setor fabril paulista teve queda de 1,3%, perdendo boa parte do crescimento de 2% nos primeiros três meses de 2011.

Segundo economistas, o quadro de crise internacional que está se desenhando pode agravar ainda mais a situação da indústria brasileira ao estimular as importações em mercados alternativos ao europeu e americano e, por outro lado, enfraquecer o consumo de bens duráveis no mercado interno.

O economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério César de Souza, ressalta que o mau desempenho foi generalizado nos segmentos industriais de São Paulo, o que salienta a tendência de queda da indústria como um todo, mesmo com os movimentos mensais oscilatórios registrados pelo IBGE. No segundo trimestre, o instituto mostrou encolhimento da produção em 14 dos 20 ramos pesquisados em São Paulo, com destaque para veículos automotores, com recuo de 4,5%; alimentos, cuja produção caiu 8%; e máquinas e equipamentos, com variação negativa de 0,5%.

"São Paulo mostra que a indústria de fato não está em um bom momento. Esses resultados agravam nossas previsões", disse Souza, que vai revisar para baixo sua projeção de 3% de expansão do setor nacional para o fim do ano. "Já temos problemas internos, que somados a esse novo cenário externo de crise, não devem favorecer a economia brasileira e muito menos a indústria."

Há analistas que já trabalham com possibilidade de retração no setor ao fim do ano. "A indústria não foge do negativo na metade do ano e fica a dúvida se ela consegue reverter esse quadro até dezembro", diz Arício Menezes, professor da Fundação Getulio Vargas e consultor da Pezco. Como barreiras a um resultado positivo para o setor industrial em 2011, ele aponta a desaceleração do crédito, do consumo e, agora, o cenário de crise externa em desenvolvimento. "Fica difícil conseguir mercado externo com aquele 'empurra empurra' de mercadorias e sofre-se um assédio de importações."

Com a confirmação de uma nova crise, os setores industriais mais afetados, segundo os analistas ouvidos, seriam os de bens de consumo duráveis, como automóveis e eletrodomésticos, dependentes de crédito e de maior confiança do consumidor. Além deles, pioraria também a situação dos segmentos que já estão sofrendo mais com a concorrência do importado, como têxteis e calçados, já que, com a deterioração nos mercados das economias desenvolvidas, as exportações asiáticas se voltariam cada vez mais para a América Latina.

"Estamos num quadro no qual pode se agravar a guerra comercial", avalia Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores. "O mercado latino-americano é apenas uma fração do europeu e do americano. Pode ser uma oferta muito grande de produtos para um mercado relativamente modesto". Menezes, da Pezco, nota que em 2009 já houve um ciclo de renovação de carros e eletrodomésticos com a redução do IPI, e que, mesmo sem crise, dificilmente o consumo desses produtos neste ano e no próximo seria igual ao daquela época.

No setor têxtil, que já acumula resultados ruins no primeiro semestre, as perspectivas são de piora com uma nova crise à vista, diz Rui Altennburg, vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc). A queda de 4,4% na indústria catarinense no semestre foi influenciada por uma queda de 19,6% da produção têxtil no período, o que, para Altennburg, está relacionado ao aumento das importações, à alta no algodão e aos pesados custos do setor. "Nossas exportações não pioraram porque elas já não existiam", afirma.