Crise na Europa faz dólar subir para R$1,57

Veículo: O Globo
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Crise na Europa faz dólar subir para R$1,57

Um dia após a agência de classificação de risco Moody’s rebaixar a nota de crédito de Portugal para junk (grau altamente especulativo), o temor de que mais países da Europa tenham seus ratings reduzidos fez com que o dólar avançasse 0,38%, cotado a R$1,57. Foi a segunda alta consecutiva da moeda americana no mercado brasileiro. A decisão da Moody’s ainda foi alvo de críticas da Comissão Europeia e do primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho.

— É o chamado murro no estômago — disse Coelho a jornalistas antes de reunião com empresários de Portugal e Espanha.

Bolsa de SP recua 0,75%. Lisboa tem queda de 3%

Na zona do euro, a Grécia já é classificada como junk (lixo), e analistas ouvidos pela Bloomberg News citaram a Irlanda como passível do mesmo destino.

— O dólar, que operou todo o dia em alta no Brasil, passou a ser alternativa dos investidores em um dia em que as bolsas na Europa fecharam em queda. Como a economia da Europa se manifestou mais desconfortável, a moeda americana acabou sendo um refúgio — disse o diretor-executivo da NGO Corretora, Sidney Nehme.

Ontem, o dólar atingiu sua máxima logo no início dos negócios, R$1,574, uma alta de 0,63%. Analistas destacaram que o dia, de muita incertezas no cenário externo, foi influenciado ainda pelo aumento de juros na China, que pode indicar desaceleração da economia global. Em ação pontual, o Banco Central (BC) entrou duas vezes no mercado, enxugando o excesso de liquidez.

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) encerrou em queda de 0,75%, aos 62.565 pontos. Na Europa, Londres recuou 0,35%, enquanto Frankfurt e Paris caíram 0,11% e 0,44%, respectivamente. A Bolsa de Madri teve queda de 1,22%, e a de Lisboa, 3,03%.

Em Nova York, o euro recuou 0,8% frente ao dólar, a US$1,4319. Com os investidores buscando aplicações seguras, o ouro teve valorização de 1,1%, com a onça-troy (31,10g) cotada a US$1.529,20.

Wall Street, ainda em funcionamento quando a Moody’s anunciou sua decisão na terça-feira, encerrou ontem em alta. O índice Dow Jones avançou 0,45%, e Nasdaq, 0,29%.

A China elevou ontem sua taxa básica de juros pela terceira vez este ano, em 0,25 ponto percentual, para 6,56%, a fim de combater a escalada dos preços. Em maio, a inflação no país ficou em 5,5%, o maior patamar em 34 meses.

Mas Roberto Koeler Lira, gestor de Renda Variável da Icatu Vanguarda, ressaltou que foi a crise na zona do euro que deu o tom ao mercado ontem. Ele lembrou que, com o rebaixamento de Portugal, os investidores pedem juros maiores para emprestar aos países em crise:

— Ainda há um reflexo em torno da decisão da Moody’s.

O rendimento dos títulos portugueses de dois anos, cujo movimento é inverso à procura pelos papéis, saltou ontem de 12,94% ao ano para 16,74%. Os bônus de dois anos de outros países com elevado endividamento também sofreram. Os da Irlanda passaram de 12,88% para 15,31%; os da Itália, de 3,09% para 3,27%; e os da Espanha, de 3,43% para 3,62%.

Durão Barroso questiona viés de agências de ‘rating’

O presidente da Comissão, José Manuel Barroso, questionou o fato de nenhuma das três grandes agências de classificação — Moody’s, Fitch e Standard&Poor;’s — ser europeia:

— Parece estranho que não haja uma única agência de rating oriunda da Europa. Isso mostra que há um viés nos mercados quando se trata de avaliar os problemas específicos da Europa.

O ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, disse que é preciso impor limites ao que chamou de oligopólio das agências de rating. A Comissão Europeia tem discutido propostas para regular essas instituições. Políticos da região também têm defendido a criação de uma agência europeia.

Para o porta-voz da Comissão, Amadeu Altafa, o rebaixamento foi um “episódio infeliz”:

— O momento da decisão da Moody’s não é somente questionável, mas baseado em cenários absolutamente hipotéticos. É um episódio infeliz e levanta, mais uma vez, a questão do comportamento das agências de rating.

A reestruturação da dívida da Grécia, por sua vez, foi o tema de uma reunião de bancos da zona do euro. Não foi divulgado comunicado. Mas o diretor-gerente do Instituto Internacional de Finanças (IIF), Charles Dallara, disse que o fato de as agências de rating ameaçarem pôr o país em calote seletivo se houver rolagem da dívida não é tão grave.

— Não acho que um calote seletivo temporário seja o pior que pode acontecer — disse ele à TV Bloomberg.