Importação e medidas do Banco Central derrubam produção industrial em SP

Veículo: Valor Econômico
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Arícia Martins e Karen Camacho | De São Paulo
09/06/2011

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A produção da indústria do Estado de São Paulo caiu 3,8% entre março e abril, na série livre de influências sazonais. Esse recuo não foi o maior entre as nove regiões pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas pelo peso da indústria paulista, foi o de maior impacto na queda nacional de 2,1% na mesma comparação.

Segundo especialistas consultados pelo Valor, o setor industrial paulista está acompanhando o movimento nacional. Após acumular crescimento de 4,6% no primeiro trimestre, a produção paulista recuou, atingida por um possível novo ciclo de importados e pelas medidas de contenção do Banco Central, já que uma menor perspectiva de consumo afeta a decisão dos empresários de investir. Tanto a queda de 2,1% na produção industrial nacional como a paulista, entre março e abril, excluídos os efeitos sazonais, teve perfil generalizado e atingiu pouco mais da metade dos setores.

"Os dados de hoje apresentam uma preocupação maior, mostrando que os dados de abril têm características mais negativas", avalia Rogério César de Souza, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi). "Essa queda preocupa, porque sabemos que a indústria de São Paulo tem participação importante na produção total do país, influenciando o desempenho das indústrias regionais por meio de suas compras."

Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), acredita que a queda mensal da produção paulista acima da média nacional é explicada porque o Estado concentra os setores com pior desempenho, como máquinas e equipamentos, têxtil, calçados e veículos. O resultado ruim de abril "não foi nenhuma surpresa", diz Skaf. "Diziam que as medidas macroprudenciais de dezembro levariam seis meses para fazer efeito, mas o efeito está aí. A expectativa de confiança do investidor e do consumidor está em queda nas últimas semanas, então não houve nenhuma surpresa."

Para Mario Bernardini, assessor da presidência da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), as medidas para segurar o crédito surtiram efeito sobre o setor de máquinas e equipamentos, mas as principais razões para o recuo da indústria paulista são as mesmas: o câmbio valorizado e uma taxa básica de juros elevada, que desencorajam os investimentos. "Não há ambiente favorável à produção no Brasil, e isso fica claro se pegarmos a formação bruta de capital fixo. Estamos patinando em uma taxa de 18%, 19% há anos. Com um crescimento na ordem de 3% do PIB industrial, que é o que prevemos, o empresário vai investir para quê?".

Segundo dados da Abimaq, a produção nacional de máquinas caiu 10% entre março e abril, mas Bernardini ressalta que dois terços do setor estão concentrados no Estado de São Paulo.

Ainda é cedo, no entanto, para dizer que o atual recuo na produção paulista será repetido em maio, concordam analistas. "Até março, parecia haver uma tendência de crescimento, então tentávamos nos amarrar em análises de São Paulo porque esse Estado tem uma indústria mais diversificada. Agora, com essa queda, buscar tendências para a indústria está ficando difícil", afirma Souza, do Iedi. "O mês de abril pode ou não ser tendência", diz Bernardini.

Das 14 regiões pesquisadas pelo IBGE, 9 registraram queda na produção entre março e abril, feito o ajuste sazonal. Os maiores tombos foram verificados no Ceará e em Goiás - de 6,9% e 5,1%, respectivamente. Enquanto no Ceará a paralisação no polo petroquímico de Pecém (CE) foi central para explicar o forte recuo em abril, em Goiás todos os setores industriais pesquisados produziram menos entre março e abril.

Além desses, os Estados de Santa Catarina (-2,6%), Pernambuco (-2,0%), Paraná (-1,9%), região Nordeste (-1,7%), Rio Grande do Sul (-1,5%) e Minas Gerais (-1,1%) registraram recuo na produção entre março e abril.

Nos primeiros quatro meses do ano, a indústria produziu 1,6% mais que em igual período do ano passado. Seis das 14 regiões pesquisadas pelo IBGE registraram variação positiva. O melhor deles - Espírito Santo, com alta de 12% - destoa, no entanto, do restante - Rio de Janeiro (3,9%), Paraná (3,8%), Minas Gerais (3,0%), São Paulo (2,4%) e Rio Grande do Sul (1,4%). Os principais setores foram os produtores de máquinas e equipamentos, os fabricantes de bens duráveis, como automóveis e celulares, e a indústria metalúrgica.