Argentina reage com ironia à retaliação do Brasil

Veículo: O Globo
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Argentina reage com ironia à retaliação do Brasil

A secretária da Indústria da Argentina, Débora Giorgi, deixou clara ontem sua irritação com o governo brasileiro, que determinou esta semana a suspensão das licenças automática para importações de veículos. As farpas da secretária se voltaram mais especificamente para o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel. Em carta enviada ao gabinete dele, Débora afirmou, em tom irônico, que lamentou não ter sido atendida quando lhe telefonou para conversar sobre os conflitos comerciais entre os dois países: “Quando tentei me comunicar, foi dito que o senhor estava reunido com o embaixador dos Estados Unidos e, certamente, as múltiplas atividades que têm os ministros o impediram, posteriormente, de retornar minha ligação”.

Em uma resposta enviada, também por carta, à secretária da Indústria argentina, o ministro sugeriu a abertura de um “diálogo construtivo” e propôs uma reunião em Brasília. No fim da noite, o site do jornal argentino “Ambito Financiero” informou que Débora e Pimentel, enfim, conversaram 20 minutos por telefone e que ela lhe propôs uma reunião em Foz do Iguaçu. Mas com uma condição: para a negociação começar, o governo brasileiro teria de suspender a barreira às importações de automóveis imposta esta semana. Ele teria pedido 48 horas para dar uma resposta.

A menção ao embaixador americano na carta de Débora, comentaram fontes argentinas, não foi por acaso. O governo Cristina Kirchner considera absurdo que o Brasil se queixe publicamente e adote retaliações contra a Argentina, país com o qual tem um alto superávit comercial, que, em 2010, chegou a quase US$4 bilhões. Já com os Estados Unidos, dizem os argentinos, o Brasil acumula um saldo negativo na balança.

A Argentina está preocupada porque a decisão do governo brasileiro de suspender licenças automáticas para importações de automóveis prejudica um setor considerado fundamental para a economia do país. Segundo jornais da província de Córdoba, que tem várias montadoras, 3 mil veículos estão parados na fronteira à espera de liberação.

A medida do Palácio do Planalto foi uma retaliação à decisão da Argentina de aumentar, em fevereiro, de 400 para 600 o número de itens importados incluídos em um sistema de licenças não automáticas. E o governo Kirchner não parece disposto a recuar. Para a Casa Rosada, trata-se de uma estratégia fundamental para um país que, no ano passado, registrou uma queda de seu superávit comercial de US$16 bilhões (saldo de 2009) para US$12 bilhões.

Em sua carta, Débora Giorgi alegou que dados do intercâmbio comercial desmentem que esteja se verificando um impacto negativo nas exportações do Brasil para a Argentina. A secretária argentina disse que podem existir “reclamações específicas em relação a alguns produtos”. Ela citou como exemplo de boas relações comerciais um suposto informativo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) que desmentiria um atraso na liberação de 800 mil pares de sapatos.

As relações entre Brasil e Argentina nunca estiveram tão tensas. Como o país vizinho não cumpriu a promessa, feita em fevereiro, de normalizar o desembaraço de mercadorias brasileiras em 60 dias, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior decidiu incluir automóveis entre os itens que necessitam de licença prévia de importação, eliminando a liberação automática. Embora a salvaguarda seja para todos os países, o alvo é a Argentina.

 

Associações reagem de formas distintas

A Abicalçados negou que as exportações para a Argentina estejam normalizadas, conforme afirmou Débora Giorgi. Segundo a entidade, até este mês, está pendente a liberação de nada menos do que 884.770 pares de sapatos fabricados no Brasil.

Já o presidente da Associação Brasileira das Empresas Importadoras de Veículos Automotores (Abeiva), José Luiz Gandini, contestou as barreiras impostas pelo governo brasileiro. Ele disse concordar com a retaliação à retenção de mercadorias nas alfândegas do país vizinho. Mas ressaltou que a barreira não deveria ser estendida a veículos de outros países.

Pelos números da Abeiva, os importadores venderam 51.698 unidades nos quatro primeiros meses do ano, o equivalente a 4,92% do total de licenciamentos no período. Assim, as montadoras com fábricas no Brasil responderam por 79,85% das importações. “Tentam atribuir à Abeiva o total generalizado de importados, quando, em realidade, nosso setor tem contribuído com apenas 4,92% do mercado interno”, disse Gandini.