Dólar ganha fôlego e volta a ficar acima de R$1,60

Veículo: O Globo
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Dólar ganha fôlego e volta a ficar acima de R$1,60

Numa escalada poucas vezes vista nos últimos anos, o dólar comercial subiu ontem pelo terceiro pregão seguido e voltou a ser cotado acima de R$1,60 — marca que havia perdido quase um mês atrás, em 7 de abril. A moeda americana avançou 1% ontem, cotada a R$1,605. Uma alta deste nível, em um único dia, não ocorria há mais de seis meses. Os motivos da valorização repentina, no entanto, dividem os analistas. Existem explicações tão diferentes como o aumento da aversão ao risco no mundo, a redução nas apostas contra o dólar por estrangeiros no mercado futuro, a queda no fluxo de recursos para o país, a inflação acelerada e as medidas adotadas pelo governo para conter a moeda.

Nos últimos três dias, o real foi uma das moedas que mais recuaram em relação ao dólar. A moeda americana subiu 2,03% ante o real. O avanço do dólar foi menor contra o dólar canadense (1,51%), o peso mexicano (1,30%) e a libra esterlina (1,32%), por exemplo.

Para uma parte dos operadores, a rápida valorização pode ser explicada pela redução das apostas contra o dólar em contratos negociados na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F;) . Na sexta-feira passada, volume de contratos em que os estrangeiros projetavam queda da moeda era de US$19,5 bilhões. Ontem, essas apostas haviam encolhido para US$15,5 bilhões.

— O movimento dos estrangeiros no mercado futuro contribui para a formação do preço do dólar no mercado à vista. Se menos agentes apostam contra o dólar, menor é a pressão pela desvalorização — disse Jorge Knauer, diretor de Tesouraria do banco Prosper.

Ontem, a cotação do dólar em contratos com vencimento em junho fechou em alta 1,01%, a R$1,607. Os negócios chegaram a 500 mil contratos, algo como US$25 bilhões movimentados. Nas operações pós-mercado, a moeda avançou mais fortemente e chegou a ser negociada a R$1,627, uma alta de 1,87%

— Os investidores estrangeiros também têm saído da Bolsa brasileira. Eles compram dólares para tirar o dinheiro do país e aumentam a escassez da moeda, o que causa valorização. E isso tem sido motivado por aversão a risco — acrescenta Luiz Eduardo Portella, sócio de renda fixa e câmbio do Banco Modal.

O Banco Central (BC) tem contribuído para a escassez de moeda com compras no mercado à vista, ainda que a doses homeopáticas. Ontem, a autoridade monetária retirou US$350 milhões de circulação, segundo estimativas do mercado, em dois leilões no mercado à vista. Na terça-feira, foram comprados US$470 milhões.

 

Fluxo cambial caiu 90% em abril

 No avanço do dólar ontem, contribuiu um indicador ruim da economia americana, o que aumentou o apetite dos investidores por aplicações com menor risco pelo mundo. O Institute for Supply Management (ISM) mostrou que o setor de serviços nos Estados Unidos voltou a mostrar expansão em abril, mas a um ritmo menor na comparação dos últimos oito meses. O índice passou de 57,3%, em março, para 52,8%, no mês passado.

Parte dos analistas atribui um peso importante também às medidas do governo. No início de abril, o Ministério da Fazenda elevou para zero para 6% a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para as contratações de empréstimos no exterior com prazo de até dois anos. Isso teria fechado portas para a entrada de capital especulativo.

— O mercado derrubou o dólar a cada medida do governo. A moeda ficou como uma mola, cada vez mais pressionada. Com o cenário externo ruim e a escassez de fluxo, o mercado precisou livrar essa mola e agora vemos o salto. Foi uma baixa exagerada — disse Mario Paiva, analista da BGC Liquidez.

Com as medidas do governo para frear a entrada de dólares no país, o fluxo cambial — entrada e saída de moeda estrangeira do país — fechou abril positivo em apenas US$1,541 bilhão, quase 90% menos do que em março, de US$12,660 bilhões, informou ontem o Banco Central (BC). No ano, no entanto, a cifra acumulada ainda é enorme: US$37,133 bilhões.

Segundo economistas, a tendência para a moeda nas próximas semanas não está clara. Eles apostam que o dólar tocou o fundo do poço na semana passada, quando chegou a ser negociado a R$1,564. E estimam que a moeda deve oscilar agora entre R$1,60 e R$1,65. Mas alertam que notícias menos negativas da expansão mundial e da inflação no Brasil podem voltar a pressionar a cotação para baixo.

— O mercado internacional está muito incerto e o dólar, no mundo, está sem força — disse o diretor de câmbio da corretora Fair, Mário Battistel.

 

Bolsa volta ao nível de julho de 2010

 No mês passado, a conta financeira — por onde passam os investimentos estrangeiros diretos e em portfólio — foi negativa em US$1,769 bilhão, pela primeira vez no vermelho neste ano. Entre janeiro e abril, por outro lado, o superávit é de US$29,581 bilhões, bem acima dos US$26,004 bilhões vistos em 2010 todo. As compras, no mês passado, somaram US$34,902 bilhões e as vendas, US$36,671 bilhões.

— Já dá para ver que as medidas surtiram efeito — disse Battistel.

Não por menos, na última semana de abril, o BC reduziu suas compras de moeda americana, somando no mês US$5,805 bilhões, bem menos do que os US$8,825 bilhões de março.

Ainda segundo o BC, em abril, a conta comercial fechou com superávit de US$3,310 bilhões, com exportações de US$18,811 bilhões e importações de US$15,501 bilhões. A posição vendida dos bancos — quando apostam na queda do dólar — ficou em US$11,731 bilhões em abril, acima dos US$8,831 bilhões do mês anterior.

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) recuou ontem pelo terceiro pregão seguido. O Ibovespa, referência do mercado, caiu 1,09%, aos 63.615 pontos, menor patamar desde 19 de julho de 2010. Em Wall Street, o Dow Jones caiu 0,66% e o Nasdaq, 0,47%.