Começa revisão das relações Brasil-China

Veículo: O Globo
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Começa revisão das relações Brasil-China

Para o Brasil, tem sido essencial. Foi sua voracidade continuada por matérias-primas — alimentos, minérios — que resgatou a economia brasileira em meio ao mais longo ciclo de expansão mundial de que se tem notícia, recém-encerrado, e permitiu ao país atingir o status inédito de credor externo, inclusive do FMI.

A China é um parceiro-chave, mas, como qualquer outro de peso, não funciona como entidade filantrópica. Se os chineses puderem garantir o suprimento de minério e soja e, em troca, entulhar o mercado interno brasileiro de bens manufaturados, o farão. Na Era Lula, tempos em que ideologia tinha grande peso na política externa, a China chegou a ser confundida em Brasília como aliada num hipotético conflito contra os “ricos”. Chegou a ser prometido que o Brasil reconheceria a China como “economia de mercado” na Organização Mundial do Comércio (OMC), para facilitar a entrada dos chineses na instituição. Felizmente, ainda falta formalizar esse reconhecimento, mantido como um trunfo brasileiro na relação bilateral.

Não passava de ilusão aquela aliança para enfrentar o Primeiro Mundo nos diversos fóruns. A China sabe que foi construída entre ela e os Estados Unidos grande interdependência, e isso ficou evidente na visita de janeiro, com pompa e cerimônia, do presidente Hu Jintao a Barack Obama, em Washington. Ali ficou claro existir um “G-2”.

A presidente Dilma Rousseff, na agenda que cumpre em Pequim, a segunda viagem do seu ainda curto governo — a primeira foi à Argentina —, demonstra entender um ponto-chave da diplomacia: pragmatismo. E conseguiu avanços, para se começar a alterar a qualidade das relações comerciais entre os dois países. Não é saudável que 83,7% do que exportamos sejam matérias-primas, enquanto 97,5% do que importamos da China constituam produtos manufaturados. A presidente foi direto ao ponto: “Nenhum país pode aspirar ao isolamento nem assegurar sua prosperidade a expensas de outros”, discursou Dilma na terça. Na frase cabem o desequilíbrio no comércio bilateral — embora tenhamos superávit de US$5 bilhões — e mesmo a política chinesa de câmbio artificialmente desvalorizado.

O saldo da viagem, a julgar por acordos e assuntos encaminhados, é positivo: a operação da Embraer na China será descongelada; anunciam-se investimentos chineses para produzir no Brasil produtos eletrônicos (iPad2) e componentes, assim como na área da tecnologia de informação; e alguns poucos frigoríficos brasileiros começarão a exportar carne suína para lá. No plano estrito da diplomacia, reafirmou-se o apoio ao status chinês de “economia de mercado” — o assunto continua como trunfo nas mangas do Itamaraty —, e o Brasil ganhou uma declaração mais explícita que a de Barack Obama de apoio ao projeto do assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Nada mal.

O problemático começa agora: o Brasil fazer o dever de casa a fim de aproveitar espaços abertos no mercado chinês para produtos manufaturados. Volta-se, assim, a uma agenda conhecida: altos impostos, infraestrutura precária e mão de obra mal preparada devido à má qualidade do ensino público básico. O sucesso da viagem pressiona por soluções de problemas conhecidos há tempos.