Desequilíbrio marca a relação comercial entre Brasil e China

Veículo: Correio Braziliense Online
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Desequilíbrio marca a relação comercial entre Brasil e China

Com situação mais vantajosa graças ao poder de barganha e de imposição, o gigante chinês escolheu fazer concessões em conta-gotas. O governo e as empresas nacionais aceitam os termos da negociação por se tratar de um mercado que abre possibilidades comerciais enormes para manter o crescimento econômico aquecido.

A avaliação de docentes e economistas ouvidos pelo Correio é que o Brasil depende mais da China do que o inverso. E essa lógica pode se estender para os principais países, sobretudo nações mais desenvolvidas, como Estados Unidos e Alemanha. A diferença é que o Palácio do Planalto e as empresas tentam tirar do Brasil o título de mero exportador de produtos de baixo valor comercial para conseguir “inundar” a China de produtos mais elaborados que custam mais caro e podem aumentar o capital que entra no país.

De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, em 2010, de toda a exportação brasileira para a China, 83,7% foram de produtos primários e 16,3% de semimanufaturados e manufaturados. Levando-se em conta apenas bens industrializados, houve uma queda de 2% na importação pelo gigante asiático. E essa tendência se agravou nos primeiros meses de 2011, o percentual para as commodities exportadas subiu para 85%.

“É positivo o aprofundamneto do comércio dos dois países. A importância da China é enorme na nossa pauta de exportação, mas é importante não só ficar na venda de produtos primários. É preciso aumentar o intercâmbio de maior valor agregado”, afirma Rafael Martello, economista da Tendências Consultoria.


Alta tecnologia


Um exemplo é a parceria que a Embraer assinou com os chineses para dar continuidade à parceria para construção do aviões no país depois da possibilidade de ter a fábrica fechada. A empresa produzirá o Legacy na China. O problema da parceria é que ela sempre é acertada nos moldes do governo chinês, com transferência de tecnologia.

“A Embraer está arriscando. Mas essas são as regras do jogo, a empresa aceita a transferência de tecnologia e abre a possibilidade de vender muito mais aviões”, afirmou Daniele Silva Ramos, professora de Relações Internacionais da Universidade de Brasília.

O economista da Tendências avaliou ser possível jogar de acordo com regras chinesas e ser competitivo. Ele, no entanto, disse que é preciso deixar mais clara as intenções do governo. “É preciso saber qual é a nossa intenção, qual a nossa estratégia. Vamos explorar só commodities e crescer. O problema é que nesse segmento fica à mercê de outros competidores. Agora, quando se detém a tecnologia é mais difícil encontrar competição. Um produto primário é mais fácil de substituir”, afirmou Martello.

A economista da Universidade Estadual de São Paulo Giuliana Pigatto cita até barreiras sociais para o aumento dos produtos exportados à China. “As dificuldades são muitas, a começar pela questão da própria língua e costumes, passando pelas regras governamentais”, disse. Uma das dificuldades é a diferença de visão sobre direitos humanos. “Como existem interesses econômicos e comerciais, não discutem de forma clara essa questão”, afirmou a professora da UnB, dizendo que os chineses preferem tratar os direitos humanos como o atendimento de necessidades básicas e não possibilidades de exposição social como livre pensamento, livre manifestação e prática religiosa sem restrições.